Indústria e varejo não encontram espaço para altas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de fevereiro de 2003
Agência Estado 
São Paulo A folga prometida pelo dólar em janeiro não veio, e acabou frustrando a projeção de queda rápida da inflação. O impasse sobre o conflito entre EUA e Iraque e a greve na Venezuela no mês passado pressionaram a moeda norte-americana, que voltou aos níveis de outubro, na casa dos R$ 3,60. O dólar ensaiou nova alta na semana passada, com a divulgação de índices inflacionários acima do esperado para janeiro. Mesmo com a pressão sobre os custos, indústria e varejo são categóricos: não há espaço para aumentos, em consequência do achatamento da renda dos consumidores ao longo de 2002.
O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos de Oliveira, explica que, por mais pressão que haja nos custos daqui em diante, não há como reajustar preços no cenário atual. ''Se aumentarmos os preços, venderemos menos ainda do que já estamos vendendo'', acredita. Embora os números de janeiro não estejam fechados, o presidente da Abras afirma que os dados de vendas não fecharão positivos na comparação com janeiro do ano passado, porque os aumentos repassados no último trimestre de 2002 já reduziram o volume de vendas.
Segundo Oliveira, os supermercados mantiveram os preços ao longo de janeiro. Houve apenas aumentos localizados ou sazonais, como os da cerveja, que sempre registra alta de preços no verão, devido à forte demanda. Mas nos demais itens, o varejo manteve e até mesmo reduziu preços, como no caso do pão e macarrão, afetados diretamente pela variação do dólar, por conta da dependência do trigo importado. Como a moeda americana chegou a refluir, o varejo conseguiu negociar preços mais baixos com fornecedores.
Indústria As indústrias confirmam as palavras do presidente da Abras. A Chapecó, por exemplo, não conseguiu repassar ao longo do segundo semestre de 2002 a alta do dólar e da ração para os preços e, segundo o diretor-comercial da empresa, Fernando Faro, ainda não há espaço para fazê-lo. ''O final do ano foi ruim, o que gerou um elevado estoque de aves no mercado. Não podemos aumentar os preços com uma oferta tão grande'', diz.
No caso da indústria de alimentos lácteos Danone, um novo reajuste de preços neste início do ano também está sendo visto com relutância. A empresa repassou aumento de 8% aos varejistas em janeiro e, apesar de ter ainda uma defasagem, não pensa em tirá-la no primeiro trimestre. ''É difícil fazer novas elevações, pois uma barreira de entrada do iogurte é justamente o preço'', diz o diretor-geral da Danone, Gioji Okuhara.


