Indústria de bens de capital retoma investimento
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terça-feira, 27 de outubro de 2009
Alexandre Rodriguese Marianna Aragão<br> AgÊncia Estado 
Rio de Janeiro e São Paulo - Derrubadas durante a crise global, a indústria de máquinas e equipamentos começa a retomar projetos de investimento. O mês de outubro deve registrar liberações entre R$ 2,5 bilhões e R$ 2,6 bilhões na linha específica para o setor (Finame) disponível no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). É quase 40% a mais do que o emprestado em setembro (R$ 1,85 bilhão) e o dobro dos financiamentos de julho (R$ 1,28 bilhão), consolidando a tendência de retomada de investimentos na indústria.
''Estamos trabalhando com esta projeção para outubro. Acreditamos que é resultado de dois fatores: os juros mais baixos do Plano de Sustentação do Investimento (PSI) e do aumento da confiança dos empresário'', afirmou à reportagem o diretor de Administração e Operações Indiretas do banco, Maurício Borges Lemos.
Na semana passada, o balanço trimestral de desempenho do banco já havia registrado R$ 2,4 bilhões em pedidos de liberação da Finame no acumulado de 22 dias úteis anteriores a 15 de outubro, depois de oscilar em torno de R$ 1,5 bilhão entre março e agosto. A média diária de desembolsos atingiu R$ 109,5 milhões este mês, superando em 80% os R$ 60,5 milhões de julho, patamar mais baixo desde o início da crise econômica.
A indústria de base, primeira a sofrer o baque da crise, começa a tomar a liderança de ''novos velhos'' investimentos. ''A recuperação da economia e o fim dos ajustes de estoques aumentaram a utilização da capacidade instalada. Em alguns setores, ela já chegou ao limite'', afirma o economista da Tendências Consultoria, Bernardo Wjuniski.
Na semana passada, a siderúrgica Gerdau voltou atrás no adiamento de um investimento de R$ 1,75 bilhão em uma nova usina em Ouro Branco (MG). As expectativas mudaram, justificou o diretor-presidente do grupo, André Gerdau Johannpeter. A companhia quer começar as obras para instalação de um laminador de chapas grossas já no início de 2010. Com o equipamento, entrará na produção de aços planos, matéria-prima que atende às indústrias petrolífera, naval, da construção civil e de equipamentos pesados.
Para o BNDES, a retomada da curva ascendente nos financiamentos reflete a atratividade do programa especial de empréstimos com juros de 4,5% ao ano, que vigora até 31 de dezembro. Mas também indica o retorno de projetos paralisados pela crise. Antes de setembro de 2008, a média diária de desembolsos da Finame vinha crescendo, e chegou a quase R$ 150 milhões.
Segundo o chefe de departamento da área de pesquisas econômicas do banco, Fernando Puga, a retomada está sendo comandada pela indústria de base. ''São setores exportadores, como siderurgia e celulose, que estavam liderando os investimentos antes da crise. Essas empresas adiaram seus investimentos e decidiram ficar líquidas, ter dinheiro em caixa. Agora, estão retomando os planos'', analisa Puga, informando que setores como o de siderurgia já estão nos mesmos níveis de uso da capacidade instalada que tinham entre 2006 e 2007.
''As obras de infraestrutura, com a perspectiva de realização de Copa e Olimpíada, vão demandar muito aço'', diz o analista de siderurgia e mineração da Link Investimentos, Leonardo Alves. Isso explicaria a motivação de companhias como a CSN, que deve reativar um investimento em Congonhas (MG), previsto desde 2007 mas postergado por causa da crise. Uma reunião amanhã entre o governador mineiro Aécio Neves e o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, deve selar a decisão. O projeto envolve a construção de uma usina siderúrgica de R$ 6,2 bilhões.
O setor de máquinas e equipamentos ainda está com nível mais baixo de uso da capacidade. O aumento da demanda por crédito no BNDES reflete mais o crescimento dos desembolsos do banco nos setores da indústria de base. Com os empréstimos para a Petrobras, chama a atenção no balanço total de liberações no acumulado dos últimos 12 meses o crescimento de 371% do setor de química e petroquímica em relação ao mesmo período anterior. Houve crescimento também nos desembolsos para os setores de material de transporte (93%), celulose (172%), metalurgia e siderurgia (76%) e mecânica (76%).
A Usiminas, siderúrgica que adiou planos de instalação de uma nova unidade em Santana do Paraíso (MG), parece estar menos animada com os sinais de reaquecimento. O principal argumento, explicou na semana passada o presidente da companhia, Marco Antônio Castello Branco, é a expectativa de que a demanda só voltará aos níveis pré-crise em 2011. O ceticismo da empresa, segundo o analista da Spinelli, Jayme Alves, tem fundamento. ''Com projetos grandes como o da Vale e Gerdau, pode haver um excesso de capacidade'', diz ele.


