São Paulo - A indústria da alimentação fechou 2003 no azul, com aumento real de 1,24% das vendas em relação ao ano anterior, mas perdeu rentabilidade. Os dados são da pesquisa conjuntural da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), antecipados à Agência Estado.
O desempenho de 2003, embora aquém dos 3% de crescimento projetados pela instituição no início do ano passado, foi considerado positivo, dadas as intempéries econômicas enfrentadas pelo País. ''Dentro das condições da economia brasileira, o desempenho do setor foi razoável e suplantou até mesmo o da indústria em geral, que segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) cresceu apenas 0,3%'', comenta o coordenador do departamento de Economia da Abia, Denis Ribeiro. ''Esse resultado vem confirmar que produtos de primeira necessidade, como os alimentos, sofrem com a crise, mas não tanto quanto os que pertencem a setores como o de bens duráveis.''
Para calcular as vendas reais, a Abia deflaciona o faturamento total do setor com o índice da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) para alimentos industrializados e semi-elaborados. De acordo com a pesquisa, a indústria de alimentação (alimentos e bebidas) faturou R$ 157,2 bilhões em 2003, o que representa uma alta de 20,84% em relação ao desempenho do ano anterior, sem descontar a inflação. Só a indústria de alimentos obteve uma receita de R$ 136,3 bilhões.
Ribeiro chama a atenção para o fato de o levantamento ter deflagrado um aumento maior na produção física do setor, que cresceu 2,08% ante 2002, do que o incremento real registrado para as vendas (1,24%). Essa diferença, segundo ele, mostra que as margens das indústrias de alimentação ficaram mais comprimidas em 2003, uma vez que os aumentos praticados ao longo do ano não foram suficientes para cobrir a alta registrada nos custos fixos, especialmente nas matérias-primas e nas embalagens. Para se ter uma idéia, as embalagens significam entre 20% e 40% do custo dos produtos alimentícios.
Pelas projeções da Abia, 2004 deve fechar com um crescimento de vendas reais de 3% e um aumento de 5% na produção. Para alcançar tal desempenho, o setor não demandaria grandes investimentos, uma vez que, de acordo com o levantamento, opera hoje com uma ociosidade de 35%.
''Estes números, entretanto, podem mudar com qualquer alteração no cenário político-econômico brasileiro e internacional'', pondera Ribeiro. ''Se o PIB brasileiro realmente crescer cerca de 3,5% e a política de juros do Banco Central for declinante, com a Selic fechando o ano entre 13% e 13,5%, conseguiremos atingir este desempenho.''
Uma das preocupações de Ribeiro recai sobre a possibilidade de o Fed (banco central dos EUA) aumentar os juros nos Estados Unidos. Em um cenário como este, o Brasil tende a assistir uma fuga de capital, o que valorizaria o dólar em relação ao real. Apesar de beneficiar exportadores, a alta do dólar refletiria no custo das matérias-primas, gerando uma pressão inflacionária.

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