São Paulo - A indústria automobilística brasileira, que este ano bateu sucessivos recordes de produção e vendas, anunciou o maior investimento anual de sua história, de quase US$ 5 bilhões e contratou 11.300 trabalhadores e foi pega no contrapé na crise mundial.
Em um único mês, após enfrentar a escassez de crédito para financiamento, o setor anunciou corte de produção, férias coletivas, plano de demissão voluntária e fim de horas extras. A previsão de fechar o ano com vendas de 3 milhões de veículos dificilmente será atingida. As apostas são de pelo menos 200 mil carros a menos. Para 2009, o crescimento de 5% a 10%, que já era bem inferior aos 24% projetados para este ano, deve ser ainda menor.
O Grupo Itavema, maior revendedor de carros do País, com 60 lojas, se prepara para uma queda de vendas de até 20% no ano que vem. ''Teremos de promover um ajuste, inclusive de pessoal'', afirma Mário Sérgio Moreira, sócio da empresa. Em sua opinião, nas crises anteriores, como a de 1998, quando as vendas despencaram 21%, o problema era localizado em algumas regiões, como o Brasil e a Ásia, e empresas americanas e européias não deixaram de investir. ''Agora a crise é no mundo todo e ninguém vai colocar dinheiro aqui.''
Em crises passadas, como a de 1998, quando o mercado brasileiro desabou depois de ter atingido o recorde de 2 milhões de carros produzidos no ano anterior e de o País ter atraído novas fabricantes, como Toyota, Honda e Renault, as matrizes bancaram os investimentos locais, mesmo com sucessivos prejuízos das filiais.
Agora, é o contrário. Matrizes das principais montadoras, como General Motors, Ford e Fiat, estão em dificuldades financeiras e as subsidiárias têm enviado parte do lucro obtido localmente. Mesmo diante da retração que devem enfrentar daqui para a frente, as montadoras não alteraram, pelo menos até agora, planos de investimento no Brasil. O setor deve aplicar US$ 23 bilhões até 2012, incluindo as autopeças.
O economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, acha que a indústria automobilística agiu rápido e correto ao decidir rapidamente por corte de produção e férias coletivas. O economista não vê, no momento, riscos de queda abrupta no número de empregos no setor, embora férias coletivas e programas de voluntariado (PDV) sejam medidas paliativas.
Sem caixa
Montadoras e revendas encerraram outubro com queda de vendas de 11% em relação a setembro e 297,7 mil veículos em estoque. Segundo fabricantes, cada mil carros estocados custam R$ 30 milhões.
O cálculo leva em conta que a matéria-prima e as peças do veículo já foram pagas, os impostos e os salários dos trabalhadores, também, além do custo financeiro. Significa que as empresas têm o equivalente a R$ 11 bilhões imobilizados nos pátios.
''Não temos dinheiro em caixa para sustentar uma paralisação de vendas'', diz o vice-presidente da GM do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto. A montadora, além de decretar férias coletivas nas quatro fábricas brasileiras, anunciou um PDV em duas delas. ''Não há mais gordura nas empresas e não queremos recorrer aos bancos e pagar juros altos.''
Responsável por 22% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial do País, o setor automotivo lidera uma das mais importantes cadeias econômicas, que vai do produtor do aço ao despachante. Qualquer abalo nas linhas de montagem reflete direto nessa cadeia.
Na semana passada, vários fabricantes de autopeças seguiram as montadoras na concessão de férias coletivas. As revendas começaram a demitir pessoal. Não se sabe ainda o alcance que terá a liberação, por parte do Banco do Brasil, de uma linha de crédito de R$ 4 bilhões aos bancos das montadoras para o financiamento direto aos consumidores.
''Acho que ainda vamos sofrer até o fim do primeiro semestre de 2009'', prevê o presidente da Associação dos Revendedores de Veículos do Estado de São Paulo (Assovesp), George Assad Chahade. A entidade representa as lojas independentes, que também têm altos estoques a serem desovados.
Nos últimos três anos os revendedores se acostumaram com aumento de vendas na casa dos dois dígitos. ''Em 2009, se as vendas crescerem 4% a 8% já estará muito bom'', afirma Sérgio Reze, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos (Fenabrave).
Para o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ex-executivo de montadora, crescimentos seguidos na casa dos 25% ''não ocorre em nenhum lugar do mundo''. A indústria, diz ele, vinha operando em turnos ininterruptos, todos os dias da semana, ''o que não é saudável''. Ainda assim, ele é o único que aposta em crescimento de 12% a 15% nas vendas em 2009.

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