Rio - Apesar dos esforços da indústria para ajustar os estoques, o que intensificou a queda na produção na virada do ano, a avaliação dos empresários é de que a demanda continua fraca. Com isso, o cenário para o mercado de trabalho mergulhou no momento mais delicado dos últimos 15 anos. Ontem, a Fundação Getulio Vargas (FGV) informou que o índice de confiança da indústria recuou 3,1%, segundo a prévia de fevereiro. Tanto a percepção sobre a situação atual quanto as expectativas pioraram.
"As empresas estão olhando as perspectivas de venda para os próximos meses, elas fizeram um esforço muito grande para diminuir a produção e ajustar estoques. Mas a confiança do consumidor está lá embaixo, a renda está crescendo menos. O ajuste fiscal promove um aperto na economia, que resulta em contenção de demanda. Agora temos o câmbio mais favorável, mas esses movimentos não são suficientes para compensar os fatores desfavoráveis", analisou o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV, Aloisio Campelo.
Em termos de emprego, o cenário é bastante complicado. Segundo a prévia, o indicador de emprego previsto deve ficar, em fevereiro, abaixo dos 100 pontos pelo décimo mês seguido. Ou seja, o número de empresas que pretendem diminuir o quadro de funcionários é superior ao número das que vão contratar há quase um ano - o que ainda sugere encolhimento da força de trabalho no setor.
"Tem 15 anos que não temos um ciclo tão longo e negativo", notou Campelo. Em 2008, no auge da mais recente crise econômica mundial, este indicador permaneceu na zona desfavorável por oito meses. "Foi uma saída rápida. Ainda se tinha mais folga na área fiscal, o governo poderia fazer algumas medidas de estímulo", comentou. Momento pior só na década de 90, ciclo que foi encerrado em março de 2000.
A queda na confiança foi puxada principalmente pelas expectativas, que recuaram 4,8% na prévia. "Isso não é um bom sinal para contratações e investimento", disse Campelo. Além da demanda, fatores como elevação de custos com energia elétrica e preocupação com o risco de racionamento de água e energia contribuem para deprimir a confiança. Uma recuperação não faz parte dos cenários de curto e médio prazo.
"É mais provável que, no fim do ano, notícias favoráveis sobre 2016 comecem a gerar mais ânimo. Hoje ainda está tudo muito incerto", afirmou o superintendente da FGV.
Além da menor confiança, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) denuncia a perda de ritmo da indústria. Embora o indicador prévio de fevereiro, aos 82%, tenha ficado no mesmo patamar de janeiro, o nível é inferior ao verificado em fevereiro de 2014 (84,6%). "Está aumentando a ociosidade da indústria quando se olha no longo prazo", finalizou Campelo.

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