Tudo piorou ontem. Declarações pouco encorajadoras do diretor de relações externas do FMI, Thomas Dawson, em relação à Argentina, atingiram em cheio os títulos de dívida externa argentinos e brasileiros, as bolsas, o mercado de câmbio e os juros. Dawson esvaziou o otimismo alardeado pelos jornais argentinos, que falavam em US$ 15 bilhões de ajuda financeira do FMI ao país, incluindo US$ 6 bilhões em dinheiro novo, tudo seria anunciado ontem mesmo. Tanto o tamanho do pacote, quanto o prazo previsto para o anúncio foram considerados ''exagerados'' por Dawson. Foi o que bastou para que o pessimismo se instalasse em todos os mercados.
No mercado de juros brasileiro, que vinha reduzindo as taxas futuras depois do péssimo resultado do PIB no segundo trimestre (queda de 0,99% em relação ao primeiro), o movimento se inverteu. Agora os juros futuros sobem, antecipando a insatisfação com que provavelmente será recebida a notícia do acordo do FMI com a Argentina e o receio que o país acabe caindo num dos temidos ''3 Ds'' (default, desvalorização ou dolarização). Na BM&F, o contrato de DI futuro para 1º de janeiro teve sua projeção de juros elevada para 23,15% ao ano, ante 22,86% de anteontem.
Mas a Argentina pode reservar surpresas de uma hora para outra e ontem a situação deteriorou-se muito rapidamente. Aumentou a impressão que o FMI pode tirar a escada e deixar a Argentina com o pincel na mão. Embora muitos no mercado pensem que a situação possa ser ''enrolada'' até as eleições argentinas de outubro, outros temem que a pressão precipite uma solução drástica antes disso.
O dólar no mercado doméstico e o risco país do Brasil e da Argentina avançaram ainda mais ontem e os títulos da dívida externa dos dois países despencaram. O dólar comercial encerrou a semana na maior cotação dos últimos 30 dias, em alta de 0,72%, vendido a R$ 2,52. O avanço da moeda norte-americana só não foi maior por causa da atuação do Banco Central, vendendo sua cota diária de cerca de US$ 50 milhões.
No mercado à vista, o dólar comercial oscilou 0,87% em terreno positivo, entre a mínima de R$ 2,5160 (+0,56%) e a máxima de R$ 2,5380 (+1,44%). Neste mês, a moeda contabiliza ganho de 2,02% frente ao real e, em 2001, de +29,16%.
O mercado acionário também jogou a toalha. Cansou de quedas modestas, à espera de um desfecho das negociações do FMI com a Argentina. O Ibovespa fechou em baixa de 3,44%, em 13.044 pontos, o menor nível desde novembro de 99. O volume financeiro somou R$ 536 milhões. A Bolsa argentina caiu 6,05%. (Márcia Pinheiro, Marisa Castellani e Silvana Rocha)

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