Brasília - Estudo preparado pelos técnicos da Comissão Mista de Orçamento para a audiência pública da qual o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, deve participar no Congresso nas próximas semanas mostra que as contradições entre a política monetária (de juros) e de crédito do governo podem aumentar as pressões sobre a inflação. Reconhecida pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a tal ''contradição'' é marcada pela alta taxa de juros, por um lado e pelo estímulo ao crédito entre consumidores de baixa renda, de outro.
Teoricamente, os juros aumentam quando o governo quer conter o consumo para frear a inflação. Mas se o governo injeta dinheiro na economia com novas linhas de crédito, a alta de juros desfaz o efeito pretendido os efeitos se anulam e a inflação continua crescendo. Nessa situação, o BC não tem outra alternativa a não ser subir os juros de novo
O estudo mostra também que aumentaram as operações de empréstimo ao consumo, ao mesmo tempo em que diminuíram os financiamentos para incrementar a produção. De acordo com os dados do BC, as operações de crédito do sistema financeiro com pessoas físicas já cresceram o equivalente a 5,91% do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2003 para 7,24% em março de 2005. No mesmo período, o crédito da indústria encolheu de 7,32% do PIB para 6,69%. Os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também caíram como proporção do PIB de 5,70% para 5,10%.
O maior crédito ao consumidor estimula a demanda, enquanto o menor crédito à produção, inibido pela alta da taxa Selic, reflete um menor ânimo e um maior custo para os empresários investirem e produzirem. É esse desequilíbrio entre oferta e demanda que os economistas apontam como um dos problemas na raiz do atual processo inflacionário.
''Curiosamente está se reproduzindo no crédito o mesmo quadro que no cenário fiscal: o volume aumenta, mas está indo mais para o consumo do que para investimentos'', diz o economista José Roberto Afonso, lembrando que as despesas do governo são cada vez mais canalizadas para gastos de custeio, como programas de transferência de renda, benefícios assistenciais e previdenciários.
No caso do crédito de pessoas físicas, a expansão é sustentada principalmente pelo chamado crédito consignado, pelo qual o trabalhador tem as parcelas de pagamento do empréstimo descontadas na folha de pagamento. Em pouco mais de um ano, essa modalidade de crédito já pulou de R$ 6,5 bilhões para R$ 15,4 bilhões em uma amostra de 13 bancos pesquisados pelo BC.

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