São Paulo - Mais da metade dos planos de investimentos anunciados pelas empresas no segundo semestre de 2004 nem sequer saiu do papel. Pesquisa inédita da consultoria MB Associados revela que só 42,1% desses projetos estão em andamento. A maioria dos demais está sendo revista ou postergada - resultado da incerteza em relação à sustentabilidade do crescimento econômico, provocada pela manutenção dos juros em níveis elevados e a persistente valorização do real ante o dólar.
Nas últimas semanas, a insegurança dos empresários em investir cresceu de forma acelerada, acompanhando o ritmo das denúncias de corrupção no primeiro escalão do governo. ''Não podemos deixar o ambiente político poluir todo o ar'', alerta Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). ''Se não tivéssemos crise política nenhuma, a teimosia do governo em insistir no binômio juro alto e câmbio baixo já seria suficiente para travar os investimentos, desaquecer a economia e até levar o País à recessão.''
A MB Associados partiu de um levantamento feito pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) sobre anúncios de investimentos. No segundo semestre do ano passado, foram anunciados 601 projetos que somavam US$ 54,2 bilhões, 4% a menos do que no semestre anterior (US$ 56,5 bilhões).
''Conversamos diretamente com as empresas e constatamos que 42,1% dos projetos estão em andamento, mas um alto porcentual está ainda em fase de elaboração do projeto, e dependendo do comportamento da política monetária e da situação política poderão eventualmente não sair do papel este ano'', afirma a economista Tereza Maria Fernandez Dias da Silva, diretora da MB Associados.
Um caso concreto é o da Grendene, uma das maiores produtoras de calçados sintéticos do País, com projeto que prevê investimento de R$ 35 milhões para instalação de uma nova fábrica em Teixeira de Freitas (BA), destinada a ampliar em 10% a capacidade de produção, hoje de 150 milhões de pares/ano. Mas a empresa não pretende desembolsar esse dinheiro no curto prazo. ''A decisão estratégica está tomada, mas ainda não foi definido quando vamos tirar o dinheiro do caixa, que está rendendo esse CDI (Certificado de Depósito Interbancário) gordo de 20% ao ano, para colocar em tijolo de fábrica'', diz Marcus Peixoto, diretor Financeiro e de Relações com o Investidor da Grendene. ''Essa é uma decisão tática que depende do comportamento do mercado, que está um horror.''
A indústria de equipamentos B.Grob, de São Bernardo do Campo, decidiu não gastar um centavo com investimento este ano. ''Fomos apanhados de calças curtas'', conta o presidente da Grob, Klaus Heydebreck, referindo-se à taxa cambial.

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