Muitos consumidores que se endividaram no comércio em Curitiba estão agora procurando financeiras para tomar empréstimos e saldar débitos de todo tipo, até mesmo contas de água, luz e telefone. O inadimplente em busca de crédito se submete a juros altíssimos, que variam entre 10% e 15% ao mês. Para o economista Sergio Martenet, as taxas praticadas pelas financeiras em empréstimos no crédito pessoal representam um ‘‘suicídio’’ e, se essas pessoas ainda não quebraram, ‘‘vão quebrar’’, alerta o economista.
Apesar de considerar o juro alto, há quem considere que compensa pagar 15% ao mês à financeira para evitar o pagamento de quase 30% às lojas de eletrodoméstricos - para quitar prestações vencidas, que embutem multas e juros. É o caso de Neli Locatelli, que está em licença-maternidade e saiu, na sexta-feira, em busca de empréstimo pessoal de R$ 250. O dinheiro seria usado para pagar uma parcela da lavadora de roupas que comprou no início do ano e também a mensalidade do colégio do filho mais velho. A parcela de R$ 101,00, referente à compra da máquina, salta para R$ 128 quando o atraso é superior a 30 dias. ‘‘Por isso compensa pagar 15% para a financeira’’, calcula. Neli não conseguiu o dinheiro porque não pôde comprovar renda superior a R$ 250.
A auxiliar de produção Iracema dos Anjos do Prado Ferreira está em situação parecida. Precisa de um empréstimo de R$ 300 para pagar a conta do telefone. Doente e em licença do trabalho, disse que o seu salário passou a ser pago pelo INSS, o que reduziu sua renda mensal. Ela adiou o pagamento do telefone para honrar outros compromissos. Agora, com três meses de atraso no pagamento, a Telepar está ameaçando confiscar a linha. ‘‘Como não tenho a quem recorrer, prefiro pagar juro de 14%, que a financeira está pedindo, para não perder o telefone’’. Mas Iracema também não conseguiu o empréstimo porque não comprovou residência.
Sonia Faria, 50 anos, desempregada, não quer empréstimo, apenas acompanhava Iracema na sexta-feira em sua via-crúcis pelo crédito, e defendeu a amiga. ‘‘ Agora chegamos ao ponto de pegar empréstimo para pagar as contas de água, luz e telefone’’, disse, indignada. ‘‘O governo diz que não tem inflação, mas ela está mascarada nas tarifas públicas’’, critica. Segundo ela, as contas de água, luz e telefone aumentaram muito ‘‘fazendo a gente perder o controle do orçamento de casa. E quem não tem onde recorrer é obrigado a vir à financeira, que dá a chance de pagar a dívida em até 12 vezes para tapar os buracos’’.
Para Sonia Faria, além das contas públicas, o preço dos alimentos nos supermercados também disparou nos últimos meses. Só o que baixou mesmo foi o preço dos eletrodomésticos. ‘‘Um fogão da Brastemp, que eu estava namorando, custava R$ 800 e caiu para R$ 600. Um vídeo cassete, que eu também queria comprar, baixou de R$ 500 para R$ 250. O problema é que agora estou sem emprego e não posso aproveitar essas ofertas’’.
O vigilante Jesuel Pinto da Luz, 25 anos, engrossa a fila dos que pleiteiam um empréstimo pessoal. Jesuel vai se casar e também recorreu às financeiras de Curitiba, na sexta-feira, com a intenção de tomar R$ 500 emprestados para comprar a mobília da nova casa. Para ele, as condições são ‘‘compensadoras’’: pagaria 11% de juros ao mês e quitaria o débito em oito parcelas de R$ 110,00. ‘‘Acertei com um amigo a compra de uma geladeira, fogão, kit de cozinha, pia, cama, estante de sala e guarda-roupa, tudo de segunda mão, pelo valor do empréstimo. Se fosse comprar só uma geladeira nova, ia gastar R$ 400 e depois não conseguiria comprar mais nada. Assim eu mobilio toda a casa’’, explicou. Mas ele não conseguiu o empréstimo porque já havia feito um crédito pessoal em outro banco e ‘‘a dívida apareceu no cadastro’’. Jesuel ganha R$ 470 por mês e diz que pretende pagar logo a dívida no banco para voltar a requisitar empréstimos.

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