A explosão de inadimplência temida pelo comércio nos próximos meses, a partir do aumento das taxas de juros - que reduz o dinheiro em circulação ao inibir as vendas e aumentar o desemprego - veio antes do previsto. Na primeira quinzena, o número de carnês em atraso há mais de 30 dias cresceu 60% em relação aos primeiros 15 dias do mês passado.
Esse crescimento ocorre sobre um nível de inadimplência já bastante elevado, mas num momento em que o calote tinha dado uma trégua - em agosto o número foi ligeiramente inferior ao de julho - e indicava estabilidade. Os números da primeira quinzena podem não se confirmar na segunda, mas de qualquer forma já é certo que o volume de registros em atraso no mês - foi de 263.337 na quinzena - será superior ao total de 378 mil no mês passado.
‘‘O índice de inadimplência deve subir para cerca de 15%’’, diz a economista Denise de Pasqual, analista da Tendências Consultoria Integrada. Em agosto, foi de 10,9%, segundo um cálculo feito pela economista que mede a proporção de registros de inadimplência em relação ao total de consultas ao SPC, excluindo os débitos que foram para a lista negra e depois foram pagos. O cálculo é feito utilizando todos os dados do mesmo mês para medir o fluxo de caixa do lojista.
Ela acha, no entanto, que não haverá uma explosão na mesma proporção do ano passado, quando o índice dobrou entre agosto e setembro. Simplesmente porque hoje já é muito mais alto do que no ano passado. Em agosto de 97, o índice de inadimplência no comércio de São Paulo era de 4%, segundo os cálculos da Tendências. Em setembro pulou para 8,4% e foi subindo nos meses seguintes até chegar a 16% em março. Agora, de 10,9% deve voltar para esse nível entre 15% e 16%, na avaliação de Denise de Pasqual.
Comparando com o pico ocorrido em 1995, no entanto, até que o índice pode ser considerado baixo. O recorde é abril daquele ano, quando o calote chegou a 23,8% das vendas daquele mês. ‘‘O comércio está mais seletivo na aprovação do crédito, a venda está mais fraca então não deve ter uma explosão, mas um aumento num nível menor’’, diz Denise.
Na média, porém, este ano é o de maior inadimplência da história do comércio. Em 1995, a média ficou em 12,96%. No ano seguinte, com as medidas adotadas pelo comércio, caiu para 8,3%. Subiu para 9,59% no ano passado e este ano saltou para 13,5%, até agosto. Até 1994, os índices eram bem inferiores, porque o comércio trabalhava com prazos mais curtos e as prestações, prefixadas, iam perdendo valor com a inflação.
O calote deve aumentar muito no crediário e ficar estável no cheque, na avaliação do diretor de Marketing, Produtos e Negócios da Teledata, Sérgio Zacchi. Isso deve ocorrer, na sua opinião, porque o comércio está mais rigoroso na aceitação dos cheques, utilizando mais os serviços de consulta. Além disso, o cheque pré-datado tem um prazo bem menor de pagamento, enquanto no crediário as lojas chegaram a oferecer prazos de até 30 meses. ‘‘É mais fácil perder o controle ou ter algum contratempo num período de tempo tão longo’’, diz Zacchi.
A inadimplência no cheque já é bem menor do que no crediário. No mês passado, o índice de cheques devolvidos por falta de fundos em todo o sistema bancário foi de 0,8% em relação ao total de cheques compensados. No comércio, esse índice sobe para 4%, segundo Zacchi. Os serviços de consulta conseguem reduzir ainda mais essa proporção. Na Teledata, o índice foi de 1,99% em agosto. Em março, foi de 3,62%.

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