São Paulo - A inadimplência do consumidor deve continuar a subir no segundo semestre, impulsionada pelas dívidas contraídas em 2009 e 2010 e pelo aumento das taxas de juros e da desaceleração da economia neste ano. Especialistas consultados pela reportagem esperam que a inadimplência retome o patamar histórico do País e volte para 7% até o fim de 2011 - em abril, a taxa referente à pessoa física foi de 6,1%, segundo o Banco Central. O comportamento da taxa de desemprego também está sendo acompanhado de perto, pois será determinante para definir se a inadimplência vai ultrapassar a média histórica do País.
Embora a elevação da inadimplência fosse esperada ao longo deste ano, a velocidade e a intensidade desse crescimento surpreenderam o gerente de Indicadores de Mercado da Serasa Experian, Luiz Rabi. ''Já estamos com um nível de inadimplência elevado. O sinal estava amarelo e agora já está ficando laranja. Não está vermelho porque o desemprego ainda vai bem'', afirmou, comemorando o fato do desemprego ainda estar em um patamar baixo.
A principal preocupação do Banco Volkswagen, segundo Thierry Roland Soret, gerente executivo de Risco da Volkswagen Serviços Financeiros, é a inflação. ''Se a inflação continuar a subir no segundo semestre, o governo vai continuar a elevar a taxa básica de juros e a adotar medidas mais restritivas para o crédito. Isso pode reduzir a atividade econômica e, por consequência, aumentar as taxas de desemprego'', afirmou. ''Por enquanto, não há sinais de que isso vai ocorrer, até porque a inflação deu uma estabilizada. Mas a inflação é a nossa preocupação em primeiro plano, seguida pelo desemprego e pelo crédito.''
Já o presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Luiz Antonio França, é mais otimista. De acordo com ele, o crédito imobiliário tem características diferentes das demais modalidades porque, com a alienação fiduciária, a garantia é o próprio imóvel. ''A pessoa sabe que se deixar de pagar, corre o risco de perder a casa. Deixar de pagar a prestação da casa própria é das últimas hipóteses quando as pessoas estão com problemas financeiros'', afirmou. Dados da Abecip indicam que a inadimplência no setor acima de 90 dias ficou em 2,17% em abril, ante uma média de 2,09% no ano de 2010. Considerando apenas os contratos com alienação fiduciária, a inadimplência acima de 90 dias ficou em 1,2% em março, dado mais recente da entidade.

Ciclo da inadimplência
Segundo Rabi, a atual onda de inadimplência está cumprindo o ciclo normal. ''Primeiro, a inadimplência se manifesta fora do setor bancário, com atrasos nas contas do varejo, financeiras, escola, telefone e luz, por exemplo. Depois, migra para os bancos, pois as pessoas sabem que vão perder o cartão e o cheque especial'', disse. Em maio, a inadimplência, segundo a instituição, subiu 8,2% na comparação com abril, sendo que a contribuição das dívidas bancárias foi de 4,5 pontos porcentuais, mais da metade do total.
Números preliminares do Banco Volkswagen se encaixam no ciclo sugerido por Rabi e indicam que a inadimplência deve fechar em 5,1% em maio, para atrasos entre 31 e 60 dias, e em 2,9%, para atrasos superiores a 90 dias - a faixa que realmente preocupa o banco. No setor como um todo, de acordo com a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), a inadimplência acima de 90 dias para o Crédito Direto ao Consumidor (CDC) estava em 3,3% em abril - ao longo de 2010, a média ficou em 2,5%. ''Os resultados de maio nos deixaram um pouco mais tranquilos. Até abril, a inadimplência vinha subindo, mas em maio percebemos uma estabilização'', afirmou Soret.
O Banco Volkswagen tem como meta fechar o ano com uma inadimplência abaixo de 5% nos atrasos entre 31 e 60 dias. A expectativa da instituição é de estabilização para o segundo semestre que, normalmente, é melhor que a primeira metade do ano para o setor. Segundo ele, o perfil do cliente que financia carros novos é melhor que o do mercado de automóveis usados, que tem um orçamento mais limitado. Além disso, as restrições impostas pelo governo desde o fim de 2010 trouxeram para a carteira do banco um cliente de perfil melhor, que financiou o carro com uma entrada maior e um prazo de pagamento menor.

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