Inadimplência cresce com juros altos
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sábado, 24 de maio de 1997
Bete Fagundes 
Arquivo FolhaSituação difícilSheila de Ângelo, diretora do Procon: Se o carro for a leilão e o valor arrecadado não cobrir o débito, o comprador vai perder o veículo e ainda terá dívidas junto à financeiraAlguns consumidores que embarcaram nas campanhas de compra fácil de carros, nos últimos meses, estão tendo dificuldade para pagar as prestações e muitos encontram-se sob a ameaça de apreensão dos veículos. No Procon em Londrina, as reclamações dos compradores têm aumentado. Sheila Mendes de Ângelo, diretora-executiva do órgão, fala que a maior parte das reclamações diz respeito aos juros praticados pelos bancos e financeiras, principalmente as taxas que incidem sobre o atraso de pagamento.
Há casos em que a cobrança gera um acréscimo de até 20% no valor da prestação vencida. Contratos feitos em TR (Taxa Referencial) prevêem a cobrança de comissão de permanência, juros de mora de 1%, multa de 10% e IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) quando cabível - só o banco, ou financeira, sabe o que significa isso.
Um atraso de cinco dias pode fazer a prestação saltar de R$ 569 para R$ 609. Em quatro dias, de R$ 586 para R$ 607. Tudo vai depender da boa vontade do gerente. Por um dia de atraso chegam a cobrar quase R$ 20 a mais, afirma um dos queixosos, com carnê de prestação em TR para pagamento total em 36 meses. Livre dos encargos, a mensalidade gira em torno de R$ 580. Pagando com 30 dias de atraso, o valor sobe para cerca de R$ 770 - comenta, irritado. Ele pagou, até agora, quatro prestações. Duas estão em atraso.
A situação aponta para uma alta no volume de inadimplência e no número de veículos apreendidos, mas os bancos e as financeiras em Londrina não querem nem tocar no assunto. Alegam, primeiro, que precisam de autorização da matriz para fornecer qualquer dado à imprensa. Depois falam que está tudo sob controle.
Mesmo sem um levantamento do número de casos registrados no órgão, nos últimos meses, Sheila vê um quadro preocupante. O problema é que o Banco Central não controla os juros das financeiras; elas estão livres para cobrar, observa a diretora, acrescentando que o próprio BC aplica altas taxas de juros no empréstimo às financeiras.
Para ilustrar, Sheila cita um caso em que a reclamante pagou parte do financiamento do veículo e depois ficou em débito permanente. Hoje corre o risco de ter o carro apreendido. Provavelmente, o carro vai a leilão, e se o valor arrecadado não cobrir o débito, além de perder o carro, a pessoa ainda terá dívidas a pagar junto à financeira.
Segundo a diretora do Procon, existem financeiras que não abrem mão do valor da prestação acrescido de multas e juros por atraso. Outras, porém, aceitam renegociar, parcelar o débito ou até segurar o cheque, se for o caso. Esses bancos e financeiras mais flexíveis sabem que é preferível perdoar a multa, ou reduzir os juros, do que levar o caso à Justiça - afirma.


