Inadimplência assusta o consumidor
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de julho de 1997
Agência Estado São Paulo 
Mesmo depois de três anos de estabilidade econômica, boa parte dos consumidores continua enfrentando dificuldades financeiras. Juros altos, desemprego elevado e salários sem correção são alguns fatores que explicam a persistência do sufoco. Na primeira quinzena de julho, o Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) recebeu 154.716 registros de carnês em atraso há mais de 30 dias, número 57,7% superior ao do mesmo período do mês passado. Os números das empresas de cartão de crédito também mostram crescimento da inadimplência em junho.
O economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), explica que não se pode projetar o número da primeira quinzena para todo o mês, mas admite que haverá um porcentual alto de inadimplência em julho. Ele diz que, pela pesquisa realizada pela ACSP com consumidores inadimplentes, o desemprego do titular do carnê ou de algum participante da família aparece como a principal causa para o atraso no pagamento.
Além disso, Solimeo aponta o aumento no volume das vendas e a dilatação dos prazos de financiamento como responsáveis pela manutenção da inadimplência em níveis elevados. Ele afirma que, nos últimos dois meses, o comércio tem sido mais rigoroso na concessão de crédito, o que poderá refletir-se em queda da inadimplência nos próximos meses.
O coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da USP, Heron do Carmo, lembra que, além do desemprego, outro fator que pode contribuir para as dificuldades financeiras é o recente aumento das tarifas públicas (luz, água, telefone), que pressiona as despesas fixas dos consumidores. Carmo cogita, ainda, que talvez se esteja atingindo novo padrão de inadimplência. Na época da inflação alta, havia escassez de crédito.
Além do desemprego e da alta das tarifas, o presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo, Antônio Corrêa de Lacerda, menciona também que os salários não têm acompanhado a inflação, o que dificulta a vida do consumidor. Mesmo que reduzida, uma taxa inflacionária de 8% em 12 meses ainda é considerável, aponta. Lacerda lembra também que as taxas no crediário continuam muito elevadas, o que torna muitas dívidas impagáveis.


