IN DOLLAR WE TRUST, BUT HOW LONG?
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de outubro de 2001
Everton P.S. Gonçalves 
Na realidade, o título acima está parafraseando um artigo de Lawrence B. Lindsey, assessor de política econômica do presidente da República dos EUA e diretor do Conselho Econômico da Casa Branca, no qual ele assegurava que o dólar continuaria forte. Mas até aonde ele estará certo?
Por mais de 20 anos, desde a elevação dos juros por Paul Volcker, a confiança no dólar como ''porto seguro'' foi se fortalecendo. O número de dólares em circulação cresceu 25% a mais que o produto interno americano, a despeito do número crescente de produtos financeiros alternativos à utilização da moeda. Como afirma Lindsey, a política do ''dólar forte'' aumentou de tal forma a credibilidade nos ''greenbacks'', que hoje mais de 70% da moeda emitida pela Casa da Moeda circula fora dos EUA.
A lógica para que os EUA lutem em manter o dólar forte é facilmente justificável pelos benefícios que a política gera ao País. Como por exemplo, a facilidade de utilizar a própria moeda nas transações internacionais, a receita de senhoriagem obtida pelo governo americano de aproximadamente 20 bilhões por ano e também pela atratividade na absorção de capitais de outros países.
Contudo, muitos analistas questionam o grau de valorização do dólar dos últimos anos. Nesse momento de crise, a discussão volta à baila, principalmente pelo fato que o dólar já vinha se depreciando com a retração da atividade econômica e pelos desdobramentos ainda imprevisíveis dos atentados terroristas aos EUA. Estaria o dólar sobrevalorizado?
Com a instituição de regimes cambiais flexíveis, a visão de que as taxas de câmbio são formadas pela interação dos fluxos tradicionais no balanço de pagamentos perdeu sentido, o valor relativo das moedas passou a ser determinado por um processo de alocação dos portfólios dos investidores internacionais. Como qualquer ativo, as moedas devem ser capazes de manter a riqueza e de transferir poder de compra para o futuro. Quanto maior a crença de consumo no futuro, maior a demanda pela moeda. Assim, ao se adotar a postura de ''olhar para frente'', os preços das moedas estarão umbilicalmente ligados às expectativas dos agentes econômicos.
O tamanho do déficit em conta-corrente seria um indicativo da sobrevalorização? Não necessariamente. Pois apesar da previsão de 4,2% do PIB para 2.001 e os EUA serem os maiores importadores de poupança externa do planeta, o país tem sido altamente atrativo para investimentos. Entre 1995 e 2000, a produtividade esteve em um nível bem superior à média mundial, o que garantiu um aumento no investimento agregado da ordem de 3,3%. O elevado superávit no balanço de pagamentos, induzido pela superioridade do retorno real dos ativos norte-americanos em relação aos demais países, tem contribuído para apreciação do dólar.
Contudo, uma nova pergunta se levanta: Esse processo se manteria com a confirmação de uma recessão global? A perspectiva ruim para os lucros das empresas e as quedas nas bolsas americanas, durante o ano de 2001, produziram um efeito riqueza negativo que já vem reduzindo o poder de compra do dólar.
A história tem mostrado que em casos de estresse, os investidores internacionais tendem em um primeiro momento a reduzir a sua exposição em ativos americanos. Contudo, passada a turbulência os fluxos financeiros voltam rapidamente. A coordenação das políticas monetárias dos bancos centrais das moedas fortes, ao reduzir quase que simultaneamente as taxas de juros e ao dar liquidez ao sistema financeiro internacional, tem mitigado a redução dos preços dos ativos financeiros. As intervenções do Banco Central do Japão e Europeu no mercado cambial têm impedido uma indesejada desvalorização do dólar que acentuaria ainda mais a queda de atividade econômica global.
A experiência mostra que, desde meados da década de 70, não se teve nenhum choque global que tenha afetado significativamente a confiança de longo-prazo dos investidores nos EUA. Com a crise que se vislumbra poderia ser diferente? É difícil qualquer resposta. Há indícios de que, até o momento, está havendo uma realocação de portfólio, com os investidores saindo de mercados de risco. Pela ausência de novos ''portos seguros'' houve um forte aumento na demanda por títulos do Tesouro, de modo que a rentabilidade dos mesmos têm atingido recordes de baixa. Contudo, no curto prazo provavelmente o dólar continuará sofrendo uma ligeira desvalorização, dado que o afrouxamento na política monetária e fiscal tem limites. Além do mais, como já destacava o saudoso economista Mário Henrique Simonsen: ''a busca de uma reordenação monetária internacional parece tão complicada quanto a quadratura do círculo''
A hegemonia dos EUA confere uma baixa probabilidade, numa perda de confiança mais duradoura. Mas se ela ocorrer, os EUA teriam que ajustar a política macroeconômica, através da queda da absorção doméstica, quer seja pela depreciação cambial quer pela manutenção de uma taxa de juros mais atrativa do que nos demais centros financeiros. Afinal, teria que adotar o mesmo remédio que sempre tem sido diagnosticado aos países endividados.
- Everton P.S. Gonçalves é Economista do Banco BNL do Brasil.


