Estudo da cadeia produtiva do feijão preto revela que nos últimos três anos a participação do produtor no custo total do alimento, até chegar ao consumidor, caiu de 60% para 50%. A redução nos preços pagos ao produtor está provocando um desestímulo no Paraná, historicamente o maior produtor de feijão do País. Enquanto isso, o produto importado da Argentina está tomando conta do mercado por falta de produção, e se nenhuma providência for tomada o plantio de feijão preto na região Centro-Sul do Estado está ameaçado. O alerta é do cerealista Elias Van Der Neut, presidente do Sindicato do Comércio Atacadista de Feijão da região Centro-Sul do Paraná.
No caso do feijão de cores, a concorrência não afeta tanto, porém o preço pago ao produtor oscila muito e cai rapidamente nas fases de oferta. Enquanto isso, o varejo não mantém o preço no mesmo nível de um ano atrás, ou seja, entre os setores atacadista e varejista o preço tem evoluído. Esses setores não repassam ao consumidor as quedas do produto no período de oferta. O comércio nivela os preços ‘‘por cima’’, segundo os próprios atacadistas o que é confirmando pelas poucas cooperativas que operam com feijão.
A região mais prejudicada com a situação do feijão preto é a de Irati, com 13 mil produtores, que contribuem com 20% da produção estadual de 180 mil toneladas de feijão preto.
Para reverter essa situação, o chefe do núcleo da Secretaria da Agricultura, em Irati, Luiz Cesar Clazer de Andrade, reuniu em seminário os produtores dos nove municípios que compõem a região, cerealistas, pesquisadores e técnicos da Seab para levantar os pontos de estrangulamento da cadeia produtiva do feijão preto.
A técnica da Seab, Margoreth Demarchi, acusa o setor atacadista de aumentar sua margem de lucro em 14%, passando de 28% para 32%, em detrimento das margens historicamente alcançadas pelo produtor, em torno de 60%. Segundo ela, esta seria a principal causa de desestímulo ao produtor, uma vez que não há justificativas para esse aumento no atacado, já que o produto não agrega valor ao longo de sua cadeia. Demarchi argumenta que o produtor está sendo espoliado ao assumir sozinho o risco de uma cultura muito exposta à ocorrências climáticas.
Segundo levantamento apresentado pelo Deral, os preços do feijão preto ao produtor estiveram muito baixos na safra passada, em torno de R$ 23,00 a saca. Na primeira semana de abril de 1996, os preços foram ao fundo do poço e o produtor recebeu R$ 0,33 o quilo (R$ 19,80 a saca), enquanto na mesma semana o atacado comercializou o produto com margem de 100%, ou seja a R$ 0,66 e o varejo, com margem de 36%, que resultava num preço final de R$ 0,90 ao consumidor.Com isso, a técnica do Deral quis comprovar que o produtor está sempre perdendo na relação de custos, e por isso o produtor está pensando seriamente em largar a lavoura, mesmo.
Já Elias Van Der Neut defende o comércio atacadista, dizendo que o problema da queda de preço ao produtor é a falta de qualidade do produto paranaense. Desde que o feijão preto começou a ser importado da Argentina, ganhou a preferência do mercado consumidor pela rapidez no cozimento e proporciona caldo mais grosso, justificou.
Este ano, por falta de produção no Paraná o consumidor brasileiro está comendo o feijão argentino. A partir de dezembro, quando a safra paranaense entrar no mercado, aí ele fará a comparação e certamente vai optar pelo produto importado, agravando ainda mais a situação, alertou o cerealista. Ele acrescenta que há tempos vem sentindo dificuldades em vender o feijão do Estado.
Para evitar a falência do sistema produtivo, produtores técnicos e cerealistas concordam em adotar um plano de gerenciamento para reformular o relacionacionamento entre os elos da cadeia produtiva. A começar pelos produtores que segundo Van Der Neut devem receber apoio da Seab para tecnificar a produção e melhorar as técnicas de colheita, na busca de aumentar a qualidade do produto.

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