Rio de Janeiro - O aumento proporcional das classes D e E e a redução das classes A, B e C em janeiro mudaram a tendência que prevalecia desde o início da crise em setembro. Até dezembro, o padrão de fortalecimento da classe média do governo Lula estava relativamente preservado, segundo os cálculos de Marcelo Neri, diretor do Centro de Política Social (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
As classes A e B tiveram, é verdade, um recuo muito leve na participação total da população das seis regiões metropolitanas da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), saindo de 15,4% para 15,3% entre setembro e dezembro de 2008. Nas outras classes, porém, a tendência dos últimos anos foi mantida. A classe C, a maior de todas, prosseguiu na sua rota de crescimento naquele período, aumentando de 53,2% das regiões metropolitanas para 53,8%. As classes D e E, por outro lado, encolheram de, respectivamente, 13,5% para 13,2%, e de 17,9% para 17,7% - de acordo com o ocorrido na maior parte do governo Lula.
Segundo Neri, ''foi só em janeiro que soou o alarme de que, na área social, a crise não era apenas uma marolinha, embora ainda não esteja caracterizado que seja um tsunami''. Os sinais de reversão vieram antes de janeiro, porém, em outros indicadores que reforçam a visão do aumento de importância da classe média nos últimos anos.
Para Neri, um dos mais importantes é o emprego formal, que teve um excelente desempenho desde 2004, impulsionado pelos efeitos no Brasil do boom global. Antecipando o encolhimento da classe média em janeiro, quase 800 mil empregos formais foram perdidos a partir de novembro.
Ele, porém, numa análise preliminar do resultado mais ameno da PME em fevereiro (a renda ficou quase estável), prevê que provavelmente o mês ''ficou no zero a zero''. Isto significa que não deve ter havido uma recuperação expressiva das perdas de janeiro, mas tampouco um aprofundamento da tendência de deterioração.
A divisão de classes empregada por Neri utiliza a renda familiar total, extrapolada por métodos estatísticos da renda do trabalho que consta da PME. A classe E tem rendimentos mensais de zero a R$ 800; a classe D, de R$ 800 a R$ 1,1 mil; a classe C, de R$ 1,1 mil a R$ 4,8 mil; e as classes A e B de R$ 4,8 mil em diante.
Os trabalhadores mais qualificados, que em sua maioria são de classe média, incluindo a classe C, sofrerão mais fortemente os impactos de uma redução drástica do crescimento econômico, de acordo com as projeções do economista Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Segundo Barros, a oferta de trabalho do grupo que tem de ''algum ensino médio para cima'' está crescendo muito rápido, ao contrário do que ocorre com os que têm até o ensino fundamental completo. O resultado é que, com a freada brusca da economia, o primeiro grupo, que depende de um crescimento veloz de vagas, é o mais prejudicado. Numa projeção de cenário econômico muito ruim até 2010, o desemprego dos qualificados cresce 3,4 pontos porcentuais, e o dos não-qualificados, apenas 1 ponto.

mockup