Imóveis e veículos 'roubam' crédito do mercado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Leandro Modé<BR>Agência Estado 
São Paulo - A forte expansão do crédito para a compra de imóveis e veículos está 'roubando' espaço de outras modalidades de financiamento. Como o bolso do brasileiro é o mesmo, sobra menos dinheiro para parcelar outros produtos, como eletrodomésticos, eletroeletrônicos e móveis.
Por ora, ninguém fala em estagnação do varejo, como os próprios números do setor têm mostrado - no primeiro semestre, houve alta de 11% das vendas do comércio em relação ao mesmo período do ano passado. Mas, na margem (ou seja, na comparação mensal), os itens móveis e eletrodomésticos têm tido desempenho mais fraco do que outros segmentos.
Em abril e maio, respectivamente, as vendas gerais do comércio subiram 1,5% e 1% ante o mês anterior. Em móveis e eletrodomésticos, houve queda de 0,3% e alta de 0,6%.
Alguns dados do Banco Central (BC) indicam que a tendência deve se aprofundar, o que, segundo especialistas, obrigará as empresas de varejo a se adaptar.
Nos 12 meses encerrados em junho - último dado disponível -, os empréstimos para a aquisição de imóveis cresceram 44% e, para veículos, 34%. No mesmo intervalo, o crédito para outros bens (que inclui eletrodomésticos e eletroeletrônicos, entre outros segmentos) avançou só 2%.
Também segundo o BC, as operações de longo prazo (acima de 3 anos) se expandiram 42% nos 12 meses terminados em maio. Os financiamentos de curto prazo (6 meses a 1 ano), avançaram 15%. Os empréstimos acima de R$ 50 mil cresceram 34% nesse mesmo período, enquanto os financiamentos até R$ 5 mil tiveram alta de apenas 13%.
Razões estruturais
Segundo analistas, o novo cenário é explicado pela estabilidade da economia (que permite a queda das taxas de juros e o alongamento dos prazos de financiamento) e pelo aumento do emprego e da renda.
Por isso, dizem, nos próximos anos o mercado de crédito para pessoa física no Brasil verá o predomínio das operações de longo prazo, a exemplo do que ocorre há décadas nos países desenvolvidos. ''Estamos passando por um processo de aprofundamento financeiro'', define o analista de crédito da Tendências Consultoria, Alexandre Andrade.
O movimento ainda não preocupa os bancos, que avaliam que há renda e emprego suficientes para garantir o avanço de todos os segmentos do crédito à pessoa física - ainda que em velocidades diferentes. ''Se o consumidor tem a mínima estabilidade, a roda gira, apesar do crescimento maior no crédito para casa e carro'', afirma o diretor do Departamento de Empréstimos e Financiamentos do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior.
O superintendente executivo de empréstimos do segmento Pessoa Física do Santander, Rogério Estevão, reconhece que ''qualquer empréstimo'' reduz a renda disponível para a contratação de outras dívidas. Mas pondera que, tanto no caso do carro quanto no da casa, os prazos mais longos e os juros menores resultam em prestações mais baixas. Ou seja, acaba sobrando dinheiro para a compra de outros produtos.
O economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, acredita que, por enquanto, a economia brasileira é capaz de acomodar as variadas demandas por crédito. ''O País cresce fortemente e a renda também'', afirma.


