Igualdade de gênero está longe da realidade no alto escalão das empresas

Pesquisa com 532 empresas revela que apenas 13% delas têm mulheres na presidência

Simoni Saris - Grupo Folha
Simoni Saris - Grupo Folha

As discussões sobre a presença de mulheres em cargos de liderança nas empresas avançaram, mas a equidade e a igualdade de gêneros está longe de se tornar realidade no ambiente corporativo. Quando se observa o alto escalão das empresas no Brasil, a maioria dos cargos é ocupada por homens. A pesquisa Panorama Mulher 2019, divulgada em outubro, ouviu 532 empresas. Destas, 415 declararam ter o cargo de presidente e nesta amostragem, apenas 13% têm mulheres nessa posição. Na edição de 2018, a participação de mulheres na presidência era de 15%. A variação no percentual não deve ser vista como queda, mas como estagnação, segundo a consultoria Talenses, autora do estudo realizado em parceria com o instituto Insper. A consultoria também avalia que o quadro é reflexo de uma sociedade organizacional patriarcal e para mudar essa situação é necessário superar barreiras históricas e culturais.


Empresas presididas por mulheres aumentam em 2,5 vezes a possibilidade de ter mulheres ocupando postos de liderança, aponta a pesquisa
Empresas presididas por mulheres aumentam em 2,5 vezes a possibilidade de ter mulheres ocupando postos de liderança, aponta a pesquisa | iStock
 


“Tem bastante barreiras que precisam ser quebradas e evoluídas para que a gente conquiste mais espaços dentro da liderança e tem também o que a gente chama de viés inconsciente, que é o preconceito. E a organização do próprio ambiente corporativo torna a chegada da mulher nos altos postos mais difícil”, analisou a gerente de Comunicação, Marketing e Inteligência de Mercado da Talenses, Carla Fava. Desde a primeira edição da pesquisa, afirmou ela, a percepção é de que quanto mais mulheres presidentes, maiores as chances de terem outras mulheres em cargos de liderança. “Onde os homens são presidentes, fica mais difícil as mulheres, de fato, chegarem lá.”



Segundo a pesquisa, empresas presididas por mulheres aumentam em 2,5 vezes a possibilidade de ter mulheres ocupando postos de liderança e elevam em quatro vezes as chances de ter mulheres nos cargos de conselho, o mais alto grau hierárquico dentro de uma organização. Essa maior abertura para o avanço profissional é o principal efeito positivo de se ter mulheres galgando posições nas corporações.

O estudo também apontou que empresas com administração familiar são mais equitativas.  Assim como em 2018, a edição deste ano da Panorama Mulher revelou que era menor a probabilidade de mulheres na presidência em empresas de grande porte, com administração profissional e do setor industrial.

COMPROMISSOS

Entre as empresas ouvidas na pesquisa, apontou Fava, as que mais têm maior presença feminina em postos de liderança são aquelas que assumiram um compromisso formal de colocar as mulheres em cargos mais elevados. “Foi a primeira vez que fizemos essa pergunta. Analisamos as empresas com compromissos formais e as que não tinham compromissos formais com o empoderamento das mulheres. Entendemos que a probabilidade de ter mulheres em cargos de liderança é até duas vezes maior entre as que assumem esse compromisso.”

São compromissos como os WEPs, da ONU (Organização das Nações Unidas), sigla em inglês para Princípios de Empoderamento das Mulheres, o Movimento Mulheres do Brasil e o Movimento Mulher 360. Organizações que se comprometem com ações que visam a consolidação e o reconhecimento do papel feminino na sociedade, afirma a pesquisa, têm uma probabilidade 23% maior de uma mulher assumir a vice-presidência e 75% mais chances de terem conselheiras. “Para a gente alcançar a equidade de gênero e a igualdade de gênero, a gente precisa de alguma ferramenta transitória para impulsionar isso. Se a gente continuar na mesma velocidade em que estamos, vamos levar 202 anos para corrigir essa distorção. Quarenta e quatro por cento da nossa amostra de empresas afirmam ter tais compromissos. É menos da metade ainda”, destacou Fava.

A diretora executiva Ana Carolina Augusto Correa trabalhou durante cinco anos em uma empresa em São Paulo onde adquiriu conhecimento, experiência e autoconfiança antes de se dedicar aos negócios da família. Ela retornou a Londrina em 2009 para trabalhar na rede de farmácias Vale Verde, fundada pelos pais. Começou a atuar na área de compras, como assistente. De assistente passou a gerente, atuou na área de marketing e galgou posições até chegar à direção. 

Filha do dono e mulher, foram muitos os desafios enfrentados, conta Correa. “Era uma empresa bem paternalista. Quando você profissionaliza, acaba ficando mais frio. Quando eu estava na área de compras, tive que dar uma segurada nas compras para melhorar o fluxo de caixa. Teve gerente de loja que ficou revoltado, dizendo que eu não sabia fazer. O processo levou dois anos, melhoraram os resultados e os funcionários foram se acalmando. Você tem que provar sua capacidade com números e resultados. As mulheres que acabam indo para o papel de liderança têm que ser firmes, impor respeito, têm que ser meio duronas”, opina.

TRANSIÇÃO


Diretora de incorporação na empresa da família, Fernanda Pires diz ter começado "de baixo” e passou por vários setores
Diretora de incorporação na empresa da família, Fernanda Pires diz ter começado "de baixo” e passou por vários setores | Marcos Zanutto
 


O setor farmacêutico, aponta Correa, ainda é primordialmente masculino. Em reuniões das quais participa, como a da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias), ela é a única representante mulher e, por isso, teve que conquistar o seu espaço. Mas na empresa que dirige, afirma, a participação das mulheres vem se ampliando. Segundo ela, atualmente quase 69% dos colaboradores são do sexo feminino e 76% dos funcionários em cargos de liderança são mulheres. No centro de distribuição, onde até pouco tempo atrás só tinha funcionários homens, hoje as mulheres representam 40% dos profissionais. “A maioria dos gerentes das nossas lojas é mulher”, comentou. “O papel da mulher vem mudando na sociedade. Mas os homens estão ajudando mais nas tarefas domésticas. Historicamente, os homens sempre foram menos ativos, agora está havendo uma transição. Espero que mude e acho que a tendência é mudar. A capacidade de homens e mulheres é a mesma. E, às vezes, a mulher se sai até melhor porque se esforça para romper esse paradigma.”

Na Quadra Construtora, empresa familiar fundada em Londrina há 33 anos, as únicas mulheres em postos de liderança são a matriarca e as duas filhas. Uma delas é a engenheira civil Fernanda Pires, diretora de Incorporação. Funcionária da empresa há 17 anos, antes de chegar à diretoria, “começou de baixo” e passou por vários setores. Foi recepcionista, estagiária, coordenadora da área de engenharia civil. A progressão na carreira, contou, foi conquistada por meritocracia, modelo de hierarquização adotado na empresa. Atualmente, abaixo dela no organograma empresarial só há funcionários homens e a explicação é o conflito existente entre os anseios da vida pessoal e profissional.

Geralmente, o momento em que a mulher tem a sua grande chance de ascensão na carreira coincide com a hora da maternidade e Pires considera um “excesso de direitos” os termos da legislação trabalhista, que garantem estabilidade no emprego às gestantes e licença maternidade remunerada. “A hora em que ela vai ter o seu grande approach profissional é exatamente a hora da maternidade e faz com que ela se acomode nos seus próprios direitos”, avaliou. Além da queda na produtividade durante a gestação, Pires acredita que o afastamento do trabalho após o parto também traz prejuízos à carreira, muitas vezes, irrecuperáveis. “Uma licença de quatro ou de seis meses, em casa, no período em que ela está fazendo esse crescimento profissional, faz ela perder muito”, disse a diretora. “Se uma empresa privada se organizou sem aquela pessoa ou colocou uma pessoa no lugar dela, dificilmente essa profissional vai voltar.”

Para a diretora, as mulheres que desejam engravidar e seguirem com suas carreiras após darem à luz devem se esforçar nos noves meses de gravidez para tornarem-se insubstituíveis e lutarem por políticas públicas que garantam uma assistência adequada à criança enquanto a mãe estiver no trabalho.   

 


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