Igreja prega contra mudança de horário
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quinta-feira, 16 de junho de 2011
Nelson Bortolin <br>Reportagem Local 
A Igreja Católica é contra a ampliação do horário do comércio até as 20 horas, de segunda-feira a sábado, como prevê o projeto de lei do novo Código de Postura em tramitação na Câmara Municipal. Os padres, que vêm discutindo o assunto durante as missas, temem que a mudança comprometa a participação dos fieis nas reuniões e celebrações da Igreja. A Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) critica a postura da Igreja e afirma que o projeto irá gerar 20% a mais de empregos nas lojas de calçada - denominação dada aos estabelecimentos que não se localizam em shoppings.
O assessor das pastorais sociais em Londrina, padre Edivan Pedro dos Santos, considera que o projeto interfere na vida religiosa já que a maioria das reuniões da Igreja, realizadas durante a semana, é marcada para às 19h30. ''Se as lojas ficarem abertas até às 20 horas, quando as pessoas que trabalham no comércio vão chegar para as reuniões, às 10 da noite?'', pergunta.
Questionado sobre os milhares de trabalhadores londrinenses que atuam à noite, ele afirma tratar-se de exceção. ''Não é a massa que faz esses horários'', responde. Os números da Acil revelam, no entanto, que não é bem assim. Dos cerca de 40 mil empregados do comércio, quase metade já trabalha em horários diferentes, seja nas lojas de shoppings, nas farmácias ou nos postos de combustível.
No entanto, a preocupação da Igreja não é só com os dias da semana. Embora o projeto não trate do trabalho aos domingos, o padre acredita que os empresários vão reivindicar essa possibilidade ''na sequência''. ''Mas o domingo é dia do Senhor. É o dia Santo para os trabalhadores se encontrarem com o Senhor''.
Ele também afirma que as funcionárias poderão ser prejudicadas com a medida porque as creches não funcionam à noite para atender seus filhos. ''Só na creche do Santa Fé há 300 crianças esperando por uma vaga'', reclama. O padre ainda alega estar preocupado com os trabalhadores que estudam à noite. Questionado sobre os empregos que podem ser gerados com a ampliação do horário, ele afirma não ter certeza se isso irá ocorrer.
No início do mês, a Acil e o Sindicato dos Comerciários participaram de uma reunião com cerca de 100 padres para tratar do assunto. O arcebispo Dom Orlando Brandes afirma que a Igreja não irá protestar contra a proposta, mas admite que o assunto vem sendo tratado nas celebrações e reuniões. ''Temos de fazer essa relfexão''. Para ele, o ''problema de Londrina não é o comércio, que é muito forte''. ''O problema é a indústria que precisa se desenvolver para gerar mais empregos'', opina.
Dom Orlando também critica o que considera uma ''onipotência do mercado''. ''É o poder econômico que manda. E o mercado está nesta linha de consumismo'', declara. Segundo o arcebispo, a mudança, caso ocorra, vai representar uma vantagem para quem ''já está bem'' - os empresários. ''Não vai ser vantagem para o povo.''
Segundo o presidente da Acil, Nivaldo Benvenho, os padres ''se negam a ouvir'' a posição da entidade. ''A Acil não defende a abertura do comércio aos domingos, embora os shoppings já façam isso. Já deixamos isso bem claro''. Ele lembra que o projeto apenas permite a abertura das lojas até as 20 horas, mas não as obriga a funcionarem até esta hora.
Benvenho também afirma que a lei, se aprovada, irá afetar a minoria dos trabalhadores do comércio porque a maior parte já trabalha em horário diferente nos shoppings. ''E ainda temos mais 1.200 lojas abrindo em novos shoppings nos próximos anos'', salienta.
Ele, que é católico e diz participar dos grupos da Igreja, afirma que a institução deveria estudar tecnicamente o assunto para ter um posicionamento correto.


