O templo religioso vai buscar dinheiro no templo do capitalismo. No próximo dia 13, a Igreja Católica vai lançar ações na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Os futuros acionistas não vão receber participação nos lucros nem vão aguardar os dividendos em reais. A grande inovação dessa emissão no mercado de capitais é que o investidor receberá dividendos sociais, com a transparência de uma empresa aberta.
‘‘Queremos dar um caráter bem profissional para as doações’’, explica Paulo Renato Marques, superintendente de Relações com o Mercado da Light, o ‘‘pai’’ da idéia, que surgiu quase por acaso. O Banco da Providência, criado por dom Hélder Câmara há 40 anos, que mantém vários trabalhos sociais para a Arquidiciocese do Rio de Janeiro, estava com seu caixa quase zerado.
Maria Christina de Sá, diretora do Banco da Providência, contava para Paulo Renato a dificuldade de manter o orçamento anual de R$ 2,9 bilhões. ‘‘Mantemos vários programas de recuperação de menores, ex-presidiários e ex-alcoólatras, mas não estávamos conseguindo arrecadar o que precisávamos’’, diz Maria Christina de Sá.
A Feira da Providência, evento anual que vende produtos importados a preços baixos, garantia a maior parte dos recursos para o Banco da Providência, mas vinha perdendo público nos últimos anos. Marques pensou, então, na abertura de capital do Banco da Providência. A operação inicial será de cerca de R$ 1,1 bilhão, o equivalente a 40% do orçamento total da nova ‘‘S/A’’. No segundo ano, deverão ser captados 60% do orçamento, no terceiro, 80%, e em quatro anos todos os recursos deverão vir da bolsa de valores.
Haverá três valores de cotas do banco, que estão sendo definidos. Será como se o investidor estivesse fazendo uma doação por um ano: será possível saber exatamente em que investimento estará colocando o dinheiro. ‘‘As empresas já fazem vários investimentos sociais, mas essa é uma fórmula muito criativa de captar recursos’’, avalia o ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso, consultor do Banco da Providência. Ainda não foi definido que empresas vão comprar cotas nessa abertura de capital.
Sobre a mistura inusitada de capital, Igreja, capitalismo e assistência social, o presidente da Bolsa do Rio, Carlos Alberto Reis, brinca. ‘‘O mercado de capitais, que já foi visto como cruel, pode agora se redimir e mostrar como pode ajudar na captação de recursos para causas nobres.’’

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