O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, disse que a América Latina está entrando em um de seus períodos mais difíceis em várias décadas e que os possíveis riscos na região não se restringem apenas a uma recessão ou ao crescimento do desemprego, mas ao de um desvio do longo e difícil processo de estabilização macroeconômica e reforma estrutural iniciadas na década passada.
Iglesias afirmou ainda que os países latino-americanos necessitam urgentemente introduzir mudanças institucionais, erradicando a corrupção e melhorando a redistribuição da riqueza, para enfrentar os perigos da recessão. O presidente do BID fez essas declarações durante a reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, sigla em espanhol) que está sendo realizada em Washington desde sábado.
De acordo com Iglesias, os ataques terroristas contra os Estados Unidos, no dia 11 de setembro, afetaram duramente a economia latino-americana, razão pela qual os desafios agora são muito maiores. ''Para o nível de desenvolvimento que a região alcançou, é inaceitável estar com 45% de pessoas morando na pobreza e 70 milhões na indigência. É muito para uma população de 500 milhões'', lamentou o presidente do BID. Para ele, a América Latina é a região mais desigual do mundo.
Embora sem mencionar alguns resultados positivos alcançados pelos países da região na década passada, Iglesias lembrou que o crescimento obtido nesse período foi insatisfatório e extremamente volátil. ''Este ano, a América latina deve crescer 1%, mas um ano atrás cresceu 4%.'' Ele disse ainda que os Estados precisam fazer mais reformas, já que as que foram empreendidas foram, até agora, insuficientes. O responsável pelo BID acrescentou também que a corrupção é o principal mal a ser extirpado.
''América Latina deve criar um Estado não corroído pela corrupção, um Estado responsável'', alertou. Iglesias afirmou ainda que as nações latino-americanas continuam vinculadas ao ciclo econômico internacional sem ter conseguido gerar defesas e criticou o baixo nível de poupança afirmando que, na maioria dos casos, a dependência é de exagerada poupança externa.
O presidente do BID foi além e disse que existe uma forte preocupação da comunidade internacional porque muitos países sentirão falta de recursos em decorrência de uma menor demanda mundial de produtos de exportação e redução de investimentos diretos.
''A América Latina não pode mais depender exclusivamente de matérias-primas'', alertou. Para Iglesias, a região tem enfrentado, desde meados de 1997, uma série de graves comoções externas, com as quais os preços dos produtos básicos ficaram 26% menores do que quatro anos atrás, com tendência de que caiam mais ainda. Ao mesmo tempo, acrescentou o presidente do BID, ''os prêmios de risco das taxas de juros para os países latino-americanos, que na época do estouro da crise asiática estavam em 260 pontos , dispararam, em média, para 900 pontos acima das taxas de juros dos bônus do Tesouro norte-americano''.
Iglesias explicou também que o fluxo de capital para as sete maiores economias da região, que configuram 90% do PIB latino-americano e recebem uma proporção ainda maior do financiamento externo, caíram de US$ 100 bilhões entre meados de 1997 e 1998 para US$ 50 bilhões no período de 12 meses que terminou em março deste ano. Ainda segundo ele, os investimentos em carteira praticamente desapareceram. ''Nesse mesmo período, passaram de US$ 49 bilhões para apenas US$ 1 bilhão e inclusive os investimentos estrangeiros diretos, que haviam superado as sequelas da crise russa, começaram a recuar de US$ 72 bilhões entre setembro de 1998 e setembro de 1999 para um patamar atual de US$ 57 bilhões'', acrescentou.
De acordo com o presidente do BID, os acontecimentos do dia 11 de setembro provocaram comoções profundas nos planos políticos e sociais do mundo, que, inexoravelmente, tiveram reflexo na conjuntura internacional.
''A América Latina e o Caribe foram as regiões mais afetadas por esses acontecimentos. O Caribe e Centro-América estão experimentando uma redução de fluxos turísticos sem precedentes, com repercussões dramáticas sobre esse setor e no de serviços, incluindo a aeronáutica'', disse Iglesias.
Finalmente, o presidente do BID disse que essas dificuldades na região devem resultar em taxas menores de crescimento, maiores déficits em conta corrente, retração nos fluxos financeiros e de investimentos externos em comparação com os últimos anos.
Para ele, esses fatores terão inevitáveis repercussões sobre a situação social da região, principalmente em seus níveis de pobreza e desemprego. ''É importante destacar que, mesmo que existam grandes diferenças de situação de um país para outro, os fundamentos econômicos da região estão mais sólidos do que uma década atrás, o que nos leva a pensar que, sem desconhecer essas diferenças, estamos melhor preparados para enfrentar os desafios do ciclo internacional.''

mockup