Idosos têm dificuldade em manter saúde financeira
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domingo, 04 de janeiro de 2015
Cecília França<br>Reportagem Local 
O aumento da expectativa de vida, a maior participação dos idosos na manutenção das famílias e as facilidades de crédito fizeram crescer a parcela de pessoas com mais de 60 anos que possui dívidas atrasadas. Mesmo abaixo do índice geral da população (24,5%), a inadimplência nessa classe chega a 12,7% e preocupa pesquisadores e educadores financeiros. Estudo inédito do Serasa Experian mostra que a Região Sul possui o menor índice de endividamento de idosos do País (11%), no entanto, o Paraná está acima da média regional (11,4%).
O superintendente do Serasa Consumidor, Júlio Leandro, diz que a pesquisa foi realizada após a constatação de dificuldades de pagamento por parte dos idosos em outros estudos de educação financeira e considera dívidas acima de R$ 200 atrasadas há mais de 90 dias. "Os idosos são um público cada vez mais importante; antes, éramos um país de jovens, mas nossa pirâmide virou um losango", lembra ele.
Leandro destaca uma participação mais ativa dos idosos na vida financeira das famílias, em função do aumento da longevidade. "Pelos nossos conhecimentos, verificamos que eles hoje ajudam na família, fazem investimentos crescentes com saúde e muitos continuam trabalhando, mas querem ter lazer também", explica.
Todas essas variáveis aumentam os gastos, que podem sair do controle. Para o educador financeiro Reinaldo Domingos, os idosos brasileiros sofrem para honrar compromissos por serem "analfabetos financeiros". Ele destaca que os 29 milhões de beneficiários do INSS tiveram pouca ou nenhuma educação para controlar gastos e, muito menos, para poupar, o que os deixa vulneráveis a investidas de financeiras.
"Eles não conseguem viver uma vida com qualidade apenas com a aposentadoria e, neste cenário, entra o facilitador, os créditos como cheque especial, cartão de crédito, consignado", enumera. Segundo Domingos, apenas 1% dos aposentados são "sustentáveis" financeiramente, 46% são dependentes de parentes, 28% têm que pedir ajuda e 25% continuam trabalhando.
É o caso de Maria Cícera Castro, 71, que vende frutas há quase cinco décadas no centro de Londrina e recebe um salário mínimo do INSS. "Não dá nem para comprar os remédios; tomo dez comprimidos por dia", relata. Cansada, ela conta que não pode abandonar o trabalho de ambulante porque o salário "não dá para comer, vestir, calçar". Mesmo assim, ela acabou tendo o nome protestado em virtude da compra de um bem mais caro.
"Meu sonho era sair do SPC para poder ter um cartão de crédito; não posso porque comprei uma geladeira e não consegui pagar, o juro é muito alto", reclama. Dona Maria garante que não gasta mais do que ganha, mas, às vezes, é pega de surpresa por uma eventualidade, como a necessidade de um remédio extra.
Waldomiro Modesto, 75, também diz que a vida "está apertada" quando o assunto é dinheiro. Aposentado como ensacador com R$ 2,1 mil, há mais de uma década, hoje ele recebe apenas um salário mínimo e, para complementar a renda, vende alho. Ele conta que começou a trabalhar como vendedor antes mesmo da aposentadoria, quando o salário estava defasado.
"Fiquei ganhando menos de um salário e não conseguia pagar água, luz, prestação da casa", relembra. Atualmente, com a casa própria garantida, ele vive com uma filha, atualmente desempregada, e diz que gasta apenas com o básico. "Tem coisa que deixei de fazer, como a reforma da minha casa, mas não dá para gastar com isso", lamenta.


