Identidade cultural
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de junho de 1997
José Roberto Whitaker Penteado Gente foi feita para brilhar. - Maiakovski. 
Nesta semana, estarei participando - durante um encontro sobre Artes e Cultura, em San Francisco - de um painel onde se debaterá o tema Identidade Cultural. Fazem parte da minha mesa dois professores - um australiano e um italiano...
Acredito em planejamento; de modo que fui à enciclopédia eletrônica para fazer o verbete dar uma voltinha no texto e verificar para mim quais são os temas relacionados a essa versão de identidade. Claro que minha enciclopédia eletrônica é americana, como acredito que são todas as enciclopédias em CD em uso no Brasil atualmente.
Por isso mesmo, achei o resultado significativo: a expressão identidade cultural aparece num total de 8 artigos. Dois são sobre o mundo islâmico, dois são sobre a América Latina, um sobre os malaios, um sobre a tribo dos Shona, do sul da África, um sobre os highlands da Escócia e um sobre a Unesco.
Conclui-se, portanto - considerando essa consulta bibliográfica como uma pesquisa de flagrante - que, pelo menos de um ponto de vista norteamericano (e creio haver razões para supor que possa ser compartilhado pela parte mais desenvolvida da comunidade européia), identidade cultural é algo que tem a ver com os povos exóticos e/ou primitivos do mundo. Admitido o parêntese de que a Unesco - entre as organizações das Nações Unidas - é, sabidamente, uma entidade exótica...
Levando as reflexões mais adiante, se o tema identidade cultural não se coloca nas discussões sobre os povos desenvolvidos do Ocidente, é porque, em relação a ingleses, alemães, franceses ou italianos, ela é óbvia, enquanto não o é para o mundo islâmico, os latino-americanos ou os selvagens do highland escocês.
Resulta, portanto, dessa análise, que, para os povos desenvolvidos, de fato, identidade cultural pode ser algo desconhecido sem forma definida, meio assustador. Como são eles que dão a maioria das formas e designações à realidade global, isso é preocupante.
Um exemplo que me ocorre, a respeito, foi a célebre resposta que deu um de nossos sábios, Joãozinho Trinta, à crítica de que o Carnaval estaria sendo descaracterizado pelo excessivo luxo no desfile das escolas: de que pobre gosta é de luxo. E o complemento lapidar, de que quem gosta de pobreza é intelectual.
Nessa simplicidade revela-se toda uma análise sociológica que nem nosso presidente faria melhor. De fato, o elemento cultural que identifica o carnaval brasileiro não são necessariamente os ingredientes que lhe dão forma, mas, sim, a própria idéia de carnaval inserida em nossa cultura. Evidentemente, os pobres escravos e a gente simples do povo que saía às ruas em procissão de alforria, há um século ou dois, improvisavam seus disfarces e parmentos com aquilo de que dispunham. Mas essa carência não fazia - como não faz - parte integrante da cultura carnavalesca brasileira. Aliás, a palavra carnavalização e suas derivações são atualmente utilizadas, nas ciências sociais, para designar os processos de subversão da ordem convencional e com um significado muito mais positivo - e criativo - do que nos tempos em que o McCarthismo prevalecia também na cultura.
Finalizando, portanto, cultura é cultura e pobreza e miséria são pobreza e miséria. Nosso futebol começa na várzea e encanta as platéias, de Wembley ao Parc des Princes. Nossa música popular se inicia nas favelas e gafieiras e passa pela sofisticação dos bares e inferinhos de Copacabana e Ipanema, antes de conquistar os palcos do mundo.
Não se trata de ufanismo, mas de mera constatação. Tudo que é bom e verdadeiro, em situações de carência material, torna-se melhor e mais cintilante quando adquire condições para brilhar. Isso sim, é identidade cultural em qualquer lugar do mundo.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda de Marketing.


