A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou, em 18 de outubro, o Alerta SNVS/ANVISA/Vfarm nº 6: ''Aumento do risco de suicídio em pacientes pediátricos em uso de antidepressivos''. Isso significa que , por meio de sua divisão de Farmacovigilância, vem incorporar as recomendações da agência reguladora americana Food and Drug Administration (FDA) quanto ao alerta de saúde pública pelo uso de antidepressivos por jovens e crianças.
A FDA concluiu recentemente que ''crianças e adolescentes submetidos a antidepressivos tinham risco quase duas vezes maior de tendências suicidas do que jovens que não recebem as drogas''. Com esse fundamento, foi solicitado que as empresas detentoras do registro de medicamentos antidepressivos revissem o conteúdo de suas bulas, incluindo advertências em relação ao aumento do risco de suicídio.
No Brasil, as substâncias sob controle especial são reguladas por lei e as bulas deverão ser atualizadas como desdobramento do procedimento americano. A bula do produto nacional deve seguir as alterações necessárias do mesmo medicamento estrangeiro.
A questão que se coloca, além da alteração da bula, é a necessidade de um rigoroso critério para a prescrição de um antidepressivo para crianças e adolescentes. A venda desses medicamentos aumentou nos últimos anos como fruto de investimento maciço da indústria farmacêutica em campanhas dirigidas a médicos e pacientes.
O professor americano Joseph Dumint estima que, nos EUA, as empresas do setor gastam aproximadamente US$ 6,5 milhões para influenciar médicos, US$ 2,6 milhões para atingir diretamente o público e US$ 12 milhões em amostras grátis. No Brasil, os antidepressivos são o segundo mercado em que mais faturam, atrás apenas dos remédios destinados ao aparelho digestivo.
Antidepressivos e o suicídio
Para a psiquiatra Doris Hupfeld Moreno, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, três hipóteses podem explicar a ligação entre o uso de antidepressivos e os casos de suicídio. ''A mais aceita pelos médicos é a de que, no início do tratamento, nem todos os sintomas melhoram ao mesmo tempo. A pessoa que já vinha pensando em suicídio mas estava desanimada, sem energia, pode recuperar a disposição a partir do momento em que o medicamento começa a agir e, então, concretizar a idéia de tirar a própria vida'', explica.
A segunda causa representaria um efeito colateral de antidepressivos: a agitação, tão sofrida, a ponto de levar a idéias de morte. Doris aponta uma terceira causa possível. ''Também há evidências de que é preciso estudar o histórico familiar ou prévio de doença maníaco-depressiva antes de medicar com antidepressivo'', ensina a médica.
''Por meio da observação de meus pacientes, percebi que pessoas com histórico dessa doença, por predisposição genética, podem desencadear sintomas mistos de euforia/ativação e depressão sob efeito de antidepressivos e, simultaneamente, desenvolver idéias de suicídio'', adverte.
Orientações
- Fique atento a qualquer mudança de comportamento do paciente, como irritabilidade, tristeza e sintomas que se prolonguem. No caso de criança, se ela começar a falar coisas que não fazem muito sentido, que já pensou em morrer, por exemplo, procure um médico. Esse tipo de pensamento não é normal e é o suficiente para disparar o alarme
- Também fique alerta para alguns sinais: se a criança não consegue sentir alegria e prazer; se perde a capacidade de concentração (queda do rendimento); se tem alteração de humor - irritabilidade, tristeza, apatia -, se apresenta alteração no sono (no adolescente, o sono aumentado é muito comum); se manifesta pensamentos e visão do mundo negativos ou fica sensível a críticas (magoa-se muito com qualquer observação).
- Discuta com o seu médico estas questões caso ele faça uma prescrição de medicamento antidepressivo para o seu filho.
(*) O IDEC é uma associação independente e sem fins lucrativos, que há 16 anos defende os direitos dos consumidores. Informações: (0xx11) 3874-2152/www.idec.org.br.

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