Especial para AE



São Paulo - Quem passeia com o menino Lucas Macedo por pouco mais de cinco minutos não deixa de se impressionar com sua memória para as marcas. Com apenas dois anos, ele é capaz de identificar qual é o banco em que têm conta o avô, o tio, a mãe e a avó. Para ele, o refrigerante é ''Coca'' e o iogurte é ''Danoninho''. Mal pronunciados, mas bem inteligíveis.

Em 2000, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) lançou a pesquisa ''Perspectivas sobre a Criança e a Mídia'' e divulgou que as compras influenciadas pelos pedidos das crianças norte-americanas rendiam US$ 500 bilhões por ano para os cofres das grandes empresas. Por sua vez, essas empresas destinavam aproximadamente US$ 12 bilhões ao ano em anúncios para o público infantil.

Basta ligar a TV para entender a memória de Lucas. Comerciais voltados para as crianças disputam espaço nos intervalos dos programas infantis. Além disso, durante a programação, os apresentadores anunciam desde brinquedo até material escolar ao seu público. Segundo o ''Perspectivas Sobre a Criança e a Mídia'', no mundo todo, o tempo, em média, que a criança dedica à televisão é até 50% superior ao dedicado a outras atividades, como brincar, ler, ouvir música e usar o computador. A televisão é o meio de comunicação preferido de 88% das crianças e está presente em mais de 98% dos lares brasileiros.


- O que fazer?

Em um País onde cada pessoa tem renda anual média de pouco mais de R$ 8 mil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fica difícil satisfazer todos os desejos de consumo de uma criança. Além disso, atender a todos os seus pedidos pode render danos sérios. O relatório da Unesco divulga que um dos principais problemas do consumo desenfreado das crianças é a obesidade.

Em 2000, o Idec lançou um livro pela editora FTD, escrito por Ruth Rocha e ilustrado por Alberto Llinares, que aborda essa questão. ''No tempo em que a televisão mandava no Carlinhos...'' conta a história de uma criança que se alimentava de acordo com aquilo que via anunciado na televisão. O resultado foi a obesidade e alguns apelidos maldosos na escola. Carlinhos opta por uma dieta de um comercial e acaba doente.

''A criança é movida por suas vontades e, de uma forma ou de outra, tentará fazer com que essa prevaleça, nem que para isso tenha de agir abruptamente e cometer um escândalo'', explica a pedagoga Helena. Então, como evitar um embaraço público no caso de uma negativa dos pais? ''O ideal é conversar com a criança e explicar que ela não precisa daquele produto e que ele custa dinheiro. Expor a situação é a melhor solução'', diz Helena. A profissional acredita que exemplos sempre ajudam: ''É bom dizer que, se a criança insistir naquele produto, os pais não terão como pagar a escola ou comprar algo que ela tenha por hábito consumir e ficará sem''.

- Propaganda abusiva

Do ponto de vista legal, o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor alerta sobre a propaganda abusiva para crianças. É considerada abusiva uma publicidade discriminatória, que incite a violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais ou seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.

Nesse caso, o consumidor deve procurar um órgão de defesa do consumidor (Procon) e denunciar o anunciante ao Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) no telefone (11) 3284.8880 ou pelo site www.conar.org.br.

(*) O IDEC é uma associação independente e sem fins lucrativos, que há 16 anos defende os direitos dos consumidores. Informações: (0xx11) 3874-2152 / www.idec.org.br.

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