Ida de Guedes ao Senado não é suficiente para acalmar mercado
O ministro da Economia, Paulo Guedes, falou nesta quarta-feira (27) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a reforma da Previdência. O discurso, no entanto, não surtiu o efeito de acalmar o mercado. A bolsa brasileira despencou mais de 3%, reflexo da crise política que coloca em xeque a aprovação da reforma. O dólar avançou mais de 2% e fechou no maior patamar desde o começo de outubro
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quinta-feira, 28 de março de 2019
O ministro da Economia, Paulo Guedes, falou nesta quarta-feira (27) na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado sobre a reforma da Previdência. O discurso, no entanto, não surtiu o efeito de acalmar o mercado. A bolsa brasileira despencou mais de 3%, reflexo da crise política que coloca em xeque a aprovação da reforma. O dólar avançou mais de 2% e fechou no maior patamar desde o começo de outubro
Folhapress 

São Paulo - De pouco adiantou para acalmar o mercado o ministro da Economia, Paulo Guedes, falar sobre a reforma da Previdência na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado. Depois de uma breve recuperação na véspera, a Bolsa brasileira despencou mais de 3% nesta quarta-feira (27), reflexo da crise política que coloca em xeque a aprovação da reforma da Previdência. O dólar avançou mais de 2% e fechou no maior patamar desde o começo de outubro, antes do primeiro turno. No Senado, Guedes afirmou que permanecerá no governo se "o presidente apoiar coisas que podem resolver o Brasil".
Na noite de terça-feira (26), o governo de Jair Bolsonaro (PSL) sofreu uma nova derrota no Congresso, após a Câmara aprovar em dois turnos e por esmagadora maioria, o Orçamento impositivo. O texto tira do Executivo autonomia para contingenciar gastos e coloca em dúvida o cumprimento do teto, aprovado na gestão Temer.
Segundo a corretora Guide, a votação relâmpago abriu a "caixa de pandora" do Congresso, ao expor a divergência entre o parlamento e o governo Bolsonaro. Desde a semana passada, o presidente está sendo cobrado por deputados a defender e trabalhar pela reforma da Previdência. Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), trocaram acusações sobre de quem seria a responsabilidade de convencer o Congresso e a sociedade sobre a necessidade de aprovação de novas regras para a aposentadoria.
"O evento dos 100 mil pontos [registrado no começo da semana passada] mostrou que para continuar avançando precisaríamos de mais notícias boas, o que não aconteceu", André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.
Para ele, três fatores afetam o mercado: a disputa entre a classe política e Judiciário, explicitada pela prisão do ex-presidente Michel Temer (MDB), um presidente que não consegue desanuviar tensões e ainda a dificuldade de tocar apenas uma pauta, a Previdência.
As novas regras para aposentadoria são consideradas fundamentais pelo mercado financeiro para o reequilíbrio das contas públicas. Foi a larga vantagem de um governo que se posicionava pró-reforma e que tinha um economista liberal como fiador que deu impulso à Bolsa desde o final do ano passado.
Com o aumento da incerteza sobre a reforma, porém, a Bolsa despenca e retorna ao patamar de início do governo Bolsonaro. Nesta quarta-feira (27), o Ibovespa, o principal índice do mercado acionário brasileiro, cedeu 3,57%, a 91.903 pontos.
O principal impacto negativo veio de ações da Petrobras e do setor bancário, mas a queda foi disseminada pelo Ibovespa - apenas três papéis avançaram nesta quarta.
Outros indicadores também reagiram à crise política. O dólar subiu mais de 2% e fechou a R$ 3,955, no maior patamar desde outubro, quando a euforia com a larga vantagem de Bolsonaro sobre o segundo colocado na corrida eleitoral, Fernando Haddad (PT), trazia euforia ao mercado financeiro.
Além disso, o risco-país medido pelo CDS (Credit Default Swap) sobe quase 6%, a 183,8 mil pontos. Os contratos de juros futuros negociados na B3 também avançam.
No exterior, as perdas das Bolsas americanas foram mais modestas, ao redor de 0,5%. As moedas emergentes também tiveram um dia de perda ante o dólar.
Guedes diz que fica 'se presidente apoiar coisas que podem resolver o Brasil'
Perguntado se ficaria no governo caso a reforma da Previdência não seja aprovada, o ministro Paulo Guedes (Economia) afirmou que não tem apego ao cargo e que fica "se o presidente apoiar as coisas que podem resolver o Brasil".
"Acredito numa dinâmica virtuosa da nossa democracia. Tenho certeza de que os partidos, em especial os poderes, cada um vai fazer o seu papel. Em segundo lugar, se o presidente apoiar as coisas que podem resolver o Brasil, estarei aqui. Agora se ou o presidente ou a Câmara, ninguém quer aquilo, eu vou obstaculizar o trabalho dos senhores? De forma alguma, voltarei para onde sempre estive".
O ministro afirmou, porém, que tampouco considera deixar o cargo na primeira derrota. "Eu venho para ajudar. Se o presidente não quer, se o Congresso não quer... vocês acham que vou brigar para ficar aqui? Estou aqui para servi-los", disse Guedes. "Agora se ninguém quiser o serviço, vai ser um prazer ter tentado, não tenho apego ao cargo, como também não tenho inconsequência e a irresponsabilidade de sair na primeira derrota, desistir".
A pergunta foi feita pela senadora Eliziane Gama (PPS-MA) durante audiência de Guedes na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos), do Senado).
Em seu discurso, ele defendeu a reforma da Previdência e voltou a defender a redistribuição dos recursos, hoje centralizados na União, com estados e municípios. "A ideia é corrigir a hipertrofia do governo federal", afirmou o ministro.
Guedes tem vendido a senadores reformar o pacto federativo, prevendo a descentralização, desvinculação e desindexação dos orçamentos públicos. "Deveríamos examinar a conveniência de mandar o pacto federativo para o Senado", disse. "Não é só para salvar este ano. Trata-se de redesenhar as finanças publicas do Brasil, corrigindo o mal sistêmico que vem do modelo econômico, com recursos excessivamente concentrados no governo federal".
No dia seguinte à aprovação, na Câmara, de uma emenda constitucional que engessa ainda mais o Orçamento federal, prevendo que emendas parlamentares sejam consideradas despesas obrigatórias, Guedes minimizou o tamanho desses gastos no Orçamento do governo.
Ele voltou a defender que a classe política deve "reassumir seu protagonismo". "Em qualquer lugar do mundo, a classe política não disputa 0,2%, 0,4% do Orçamento impositivo, que é um balãozinho de oxigênio para respirar mais seis meses. O que se discute é o que vamos fazer com os orçamentos", afirmou.


