Hospital associa mortes à superlotação
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quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Agencia Estado 
O diretor da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, em Fortaleza, o médico Chagas Oliveira confirmou ontem a morte de 49 bebês somente nos primeiros 16 dias de novembro e apontou a superlotação como uma das causas do problema. As mortes teriam ocorrido nas salas de parto e berçários da maternidade mantida pela Universidade Federal do Ceará. Chagas Oliveira reconheceu a dramática estatística e admitiu que a situação do sistema de saúde no Ceará é preocupante.
A maternidade, tida como centro de referência no Estado, realizou 30% de todos os partos em Fortaleza no ano passado, atraindo quase a totalidade dos procedimentos considerados de risco. Segundo Oliveira, a clientela da MEAC é formada, em boa parte, por mulheres subnutridas (muitas ainda adolescentes), que não tiveram nenhum tipo de acompanhamento pré-natal o que muitas vezes gera fetos de baixíssimo peso ou com doenças congenitas, sem condições de sobrevivência. Não é raro elas chegarem com infecções, agravando ainda mais os problemas de atendimento, disse.
Apesar disso, Chagas Oliveira garantiu que a maternidade continuará recebendo casos desse tipo, rejeitados por outras unidades hospitalares em Fortaleza. O que fazer com essas mulheres quando as ambulâncias procedentes do interior as abandonam em nossa porta?, indagou. Ele informou que o problema só será solucionado quando, entre outras medidas, as autoridades sanitárias do Estado e do município melhorarem o pré-natal dessas mulheres, fazendo com que diminuam as taxas de gravidez de risco e de bebês prematuros. Além disso, citou a necessidade de ampliação da rede de atendimento ao parto na capital e no interior.
Atualmente, a MEAC realiza entre 1.600 e 1.700 partos por mês e sua única fonte de recursos é o Sistem Único de Saúde (SUS), que se responsabiliza por apenas 1.200 partos/mês.
A Maternidade Escola Assis Chateaubriand possui 60 leitos para assistência a recém-nascidos e, frequentemente, atende além de sua capacidade. Ainda de acordo com o diretor da maternidade, há necessidade de se estabelecer um compromisso do pré-natal com a assistência ao parto para que as estatísticas de mortes fetais e neonatais alcancem índices compatíveis com os aceitáveis pela OMS.
Desse total (1.600 a 1.700 partos/mês), a cada mil, 45 bebês não ultrapassam a primeira semana de vida na MEAC. Muitos deles são natimortos.
A prematuridade, que predispõe infecções, é a principal causa dos óbitos ou da demorada permanência na maternidade, pois há casos de recém-nascidos que chegam a passar até 70 dias na UTI, disse Oliveira. Além da Maternidade Escola, apenas o Hospital César Cals e o Hospital Geral de Fortaleza - entre as maternidades públicas -, dispõem de UTI para recém-nascidos.
Oficialmente foram 7.513 internações nos últimos seis meses, mas o número real é bem maior, observou Oliveira ao revelar que nenhum dos internamentos de mulheres procedentes do interior veio acompanhado de guia.
E o mais grave é que essas pacientes, após perigrinarem por outras maternidades, chegam a MEAC em estado crítico, muitas das quais com seus bebês já mortos. O médico Chagas Oliveira sugeriu que o atendimento aos partos sem risco sejam feitos na própria casa, acompanhado de parteiras especialmente treinadas. Só em casos complexos a gestante deverá ser encaminhada a um hospital.


