O diretor da Maternidade Escola Assis Chateaubriand, em Fortaleza, o médico Chagas Oliveira confirmou ontem a morte de 49 bebês somente nos primeiros 16 dias de novembro e apontou a superlotação como uma das causas do problema. As mortes teriam ocorrido nas salas de parto e berçários da maternidade mantida pela Universidade Federal do Ceará. Chagas Oliveira reconheceu ‘‘a dramática estatística’’ e admitiu que a situação do sistema de saúde no Ceará ‘‘é preocupante’’.
A maternidade, tida como centro de referência no Estado, realizou 30% de todos os partos em Fortaleza no ano passado, atraindo quase a totalidade dos procedimentos considerados de risco. Segundo Oliveira, a clientela da MEAC é formada, em boa parte, por mulheres subnutridas (muitas ainda adolescentes), que não tiveram nenhum tipo de acompanhamento pré-natal o que muitas vezes gera fetos de baixíssimo peso ou com doenças congenitas, sem condições de sobrevivência. ‘‘Não é raro elas chegarem com infecções, agravando ainda mais os problemas de atendimento’’, disse.
Apesar disso, Chagas Oliveira garantiu que a maternidade continuará recebendo casos desse tipo, rejeitados por outras unidades hospitalares em Fortaleza. ‘‘O que fazer com essas mulheres quando as ambulâncias procedentes do interior as abandonam em nossa porta?’’, indagou. Ele informou que o problema só será solucionado quando, entre outras medidas, as autoridades sanitárias do Estado e do município melhorarem o pré-natal dessas mulheres, fazendo com que diminuam as taxas de gravidez de risco e de bebês prematuros. Além disso, citou a necessidade de ampliação da rede de atendimento ao parto na capital e no interior.
Atualmente, a MEAC realiza entre 1.600 e 1.700 partos por mês e sua única fonte de recursos é o Sistem Único de Saúde (SUS), que se responsabiliza por apenas 1.200 partos/mês.
A Maternidade Escola Assis Chateaubriand possui 60 leitos para assistência a recém-nascidos e, frequentemente, atende além de sua capacidade. Ainda de acordo com o diretor da maternidade, há necessidade de se estabelecer um compromisso do pré-natal com a assistência ao parto para que as estatísticas de mortes fetais e neonatais alcancem índices compatíveis com os aceitáveis pela OMS.
‘‘Desse total (1.600 a 1.700 partos/mês), a cada mil, 45 bebês não ultrapassam a primeira semana de vida na MEAC’’. Muitos deles são natimortos.
A prematuridade, que predispõe infecções, é a principal causa dos óbitos ou da demorada permanência na maternidade, pois há casos de recém-nascidos que chegam a passar até 70 dias na UTI, disse Oliveira. Além da Maternidade Escola, apenas o Hospital César Cals e o Hospital Geral de Fortaleza - entre as maternidades públicas -, dispõem de UTI para recém-nascidos.
Oficialmente foram 7.513 internações nos últimos seis meses, mas ‘‘o número real é bem maior’’, observou Oliveira ao revelar que ‘‘nenhum dos internamentos de mulheres procedentes do interior veio acompanhado de guia.
E o mais grave é que essas pacientes, após perigrinarem por outras maternidades, chegam a MEAC em estado crítico, muitas das quais com seus bebês já mortos’’. O médico Chagas Oliveira sugeriu que o atendimento aos partos sem risco sejam feitos na própria casa, acompanhado de parteiras especialmente treinadas. Só em casos complexos a gestante deverá ser encaminhada a um hospital.

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