RIO - Um dos principais líderes da resitência de Timor Leste, o prêmio Nobel da Paz José Ramos Horta cobrou ontem do governo brasileiro uma atitude mais firme contra a ocupação militar Indonésia em seu país. ‘‘Se Portugal, que é um dos países mais fracos da comunidade européia, teve a coragem e a firmeza de levantar a voz perante a Alemanha, a França e os Estados Unidos, o Brasil tem, pelo menos, a obrigação moral de fazer como Portugal’’, afirmou, durante encontro com o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho.
Horta lembrou ainda que os demais países de língua portuguesa, inclusive os africanos, ‘‘nunca se negaram a partilhar sua solidariedade, apesar das dificuldades que enfrentam’’. Mais enfático, Betinho afirmou ter vergonha da atitude da diplomacia brasileira, que classificou de fraca, débil e ambígua. ‘‘Lamento a falta de iniciativa e coragem política de nosso País, que não deve nada à Indonésia’’. À tarde, em encontro com os integrantes do Grupo Tortura Nunca Mais, Horta lembrou que já houve tortura no Brasil e que o País contou com a solidariedade e o apoio internacionais. ‘‘Não fazer nada é trair os povos que no passado estiveram com vocês’’.
O prêmio Nobel da Paz foi recebido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso na quarta-feira em Brasília. Ramos Horta considerou o ato um gesto político de apoio. ‘‘Ele recebeu a resistência timorense, não apenas o Nobel da Paz’’, assinalou, lembrando ainda que Fernando Henrique se comprometeu a usar de seu prestígio para defender a causa de Timor Leste junto ao presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e junto ao primeiro-ministro da Inglaterra, John Major.
Na noite de quinta-feira, em reunião com artistas brasileiros na casa do ator Sérgio Mamberti, Horta afirmou não esperar que o Brasil adote uma posição de confronto com a Indonésia. ‘‘Pode, pelo menos, fazer uma diplomacia discreta’’. Ramos Horta lembrou que, normalmente, diplomacia discreta se traduz em não fazer nada. ‘‘Mas Fernando Henrique pode ser firme e ajudar muito’’, acrescentou. Atores como Lucélia Santos, Letícia Sabatela, Angelo Antônio e Bete Mendes estiveram com Horta e se comprometeram a ajudar a causa, dando apoio a eventos favoráveis à retirada das tropas militares de Timor.
Para Ramos Horta, o prêmio Nobel da Paz de 1996, concedido a ele e a Dom Ximenes Belo, bispo que coordena a resistência dentro de seu próprio País, traz perspectivas encorajadoras. ‘‘O impacto sobre a Indonésia é muito grande’’, acredita. Horta afirmou que, durante a cerimônia de entrega do prêmio em Oslo, na Noruega, no dia 10 de dezembro, não irá atacar a Indonésia. ‘‘Seremos magnânimos com o adversário e enviaremos uma mensagem de diálogo e cooperação’’, disse.
Ramos Horta contou ainda que recebe com frequência ameaças de morte. Uma delas veio via Internet e trazia um recado explícito: ‘‘se não parar com a campanha vamos eliminá-lo até 31 de dezembro deste ano’’. Horta prefere acreditar que se trata de guerra psicológica, mas mesmo assim, anda sempre cercado de seguranças. Em São Paulo, ele chegou a ser informado de que dois indonésios estariam na cidade com a intenção de matá-lo. ‘‘Isso não seria novidade’’, limitou-se a dizer.
O Timor Leste, uma pequena ilha no Pacífico Sul localizada entre a Austrália e a Indonésia, está sob o domínio de militares indonésios desde dezembro de 1975. De acordo com Horta, mais de 300 mil timorenses foram mortos, o que representa 44% da população da ilha. Atualmente, a situação é de extrema tensão em Timor, disse. Ele afirmou que os militares estão pressionando no sentido de evitar que Dom Ximenes Belo deixe o país para receber o Nobel. ‘‘A tortura continua sendo uma prática corrente’’, afirmou. Ontem mesmo, Ramos Horta voltou para a Austrália, onde mora.

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