Hora é de vender, recomenda produtor
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domingo, 06 de abril de 1997
Josiane Schulz Especial para a Folha 
Com a colheita de soja em fase final, a safra 96/97 já começa a mostrar seus primeiros resultados. Os preços internacionais do grão, empurrados para níveis históricos pelos estoques baixos e pelas ofertas apertadas, estão se refletindo no bolso do produtor paranaense. Apesar de muitos deles terem o volume da produção reduzido, devido a doenças ocasionadas pelo excesso de chuvas no início da safra, os preços elevados compensaram as perdas.
O produtor Carlos Alberto Abudi, de Cambé, acredita que essa seja a melhor hora de vender a produção. Nunca vi nada parecido. Em plena safra, os preços estão atingindo patamares altos. Mais que isso, são médias históricas. É uma situação muito peculiar, diz Abudi. Das 15 mil sacas de soja que colheu nos 84 alqueires destinados à cultura, Abudi já comercializou 70% - 10,5 mil sacas. Parte da produção ele pretende armazenar, arriscando um preço ainda melhor.
Apesar de ter perdido 6,4% da produção com o Oídio (uma doença fúngica), Abudi está animado com os resultados financeiros que, segundo ele, superaram as expectativas. Ele acredita que no próximo ano a situação seja similar a este. Mesmo assim, ele já está pensando em operar no mercado futuro - assinar contrato com alguma empresa, vendendo já parte da soja da próxima safra - para garantir o preço.
O destino do dinheiro que ganhou com a comercialização está traçado: 50% vai cobrir os custos de produção, incluindo pagamento de dívidas com bancos, e o restante será dividido entre o custo de vida e os investimentos. Abudi lembra que os preços são bons, mas os agricultores vinham enfrentando situações difíceis. Portanto, os investimentos que vai fazer em máquinas e implementos agrícolas não serão tão expressivos, cerca de R$ 10 mil, calcula.
O produtor Milton Carlos Munhoz, de Campo Mourão, já comercializou 30% das cerca de 20 mil sacas de soja que produziu nesta safra. Apesar do bom preço que conseguiu e da perspectiva desse quadro se manter para a próxima safra, Munhoz acha que é necessário ter cautela. Nada de aumentar área, o importante é investir em tecnologia, afirma. Com o dinheiro que está recebendo através da comercialização da safra, Munhoz vai priorizar o pagamento da securitização das dívidas. Ele pretende também renovar parte do maquinário.
Para conseguir preços ainda melhores, os produtores da Associação de Produtores Agrícolas Marianense, APAM, de Santa Mariana, optaram por vender a produção em conjunto (160 mil sacas). A estratégia é alternar a venda para o mercado exterior e interno, conforme os melhores preços. Para isso, eles se associaram a uma exportadora e, quando o mercado internacional oferece valores maiores, a soja de Santa Mariana é escoada pelo porto de Santos. Segundo o produtor Anselmo Bernardelli, um dos associados, foram exportadas 70 mil sacas de soja, 30 mil ficaram no mercado interno e o restante ainda está em fase de comercialização. A estratégia rendeu aos agricultores cerca de 10% a mais nas vendas. Esse lucro está sendo investido na própria APAM.
Quem tem soja tem dólar na mão. Assim o presidente da Cooperativa Agropecuária Rolândia (Corol), Eliseu de Paula, define o quadro atual da sojicultura brasileira. Para ele, esse momento está possibilitando a estabilização do produtor rural. Entretanto, os principais reflexos desta safra serão sentidos a partir do 2º semestre deste ano. A perspectiva é de que o produtor passe, então, a comprar máquinas e implementos agrícolas. Com certeza a indústria e o comércio vão se movimentar mais. Vai ser uma sacudida geral na economia nacional, prevê Paula.


