Infelizmente, de muitos anos para cá, o problema habitacional vem se prestando à exploração política, mediante a divulgação de planos, programas e projetos grandiosos, que aguçam a vã esperança de milhões de brasileiros em realizar seus sonhos de moradia.
A questão habitacional é muito complexa no seu todo ou em qualquer de seus detalhes. Características operacionais, análises financeiras, jurídicas e administrativas, além de conceituações de ordem sociológicas, geográficas, econômicas e políticas, formam um complexo quebra-cabeças, cujas análises e soluções desafiam o raciocínio dos poucos conhecedores das experiências, dos históricos do problema e das imensas dificuldades de sua solução.
Talvez seja essa a razão para que tanto se prometa e tanto alardeie, sem que haja cobrança da sociedade, pela inadimplência dos compromissos assumidos. Há que se dar um basta nesses procedimentos, o que poderia ocorrer se fosse reconstituido no Brasil, um órgão válido e eficiente, responsável pela Política Habitacional.
Enquanto isso não acontece, deve-se proteger a autoridade oficial, contra a inadequabilidade do trato dos problemas pela área do próprio governo. O que aqui é dito tem relação com o alvoroço que a CEF vem fazendo com seus programas habitacionais.
O governo Fernando Henrique merece ser resguardado contra os riscos de frustração de expectativas. A CEF não tem sido feliz na formulação e no dimensionamento de suas iniciativas.
Vem provocando verdadeiras corridas à suas agências, por multidões de brasileiros sinceramente crentes na possibilidade de realizar seus sonhos de casa própria.
Todavia, verifica-se que parcos são os recursos destinados a cada plano e muitas as exigências estipuladas. Os resultados dessas ações tornam-se operacionalmente inconsientes e naturalmente despreciativos para a imagem da Instituição e do próprio Governo.
Os profissionais de marketing não têm o direito de praticar a malfadada filosofia segundo a qual ‘‘em política vale a versão e não o fato’’.
Os técnicos daquela instituição têm o dever profissional e ético de programar corretamente os seus projetos, dimensionar conscenciosamente suas extensões e, mais que tudo, esclarecer convenientemente os administradores sobre o seu verdadeiro alcance.
Os administradores, por sua vez, não têm o direito de ser inocentes. Precisam ser perspicazes, indagadores, analistas e exigentes.
Assim se avitarão desatinos com os programas da ‘‘carta de crédito’’ e, agora, o do atendimento da classe média, sob condições inompatíveis com a tradição da Caixa e com o bolso do tomador.
No entanto, novas e falsas esperanças são despertadas pelos resultados de uma excepcional movimentação da mídia, para meros 300 a 400 atendimentos por unidade da Federação. Lembra-se que nos primeiros anos da década dos 80 foram financiadas 500.000 unidades/ano, sem tanto estardalhaço.
O governo Fernando Henrique Cardoso tem se portado com muita dignidade, motivo pelo qual é tão respeitado de modo que não deve ficar sujeito a aventuras publicitárias com motivos que não se coadunam com a sua filosofia administrativa.
- ROMEU CHAP CHAP é presidente da Construtora Romeu Chap Chap S.A, ex-presidente mundial para as Américas da Federação Internacional das Profissões Imobiliárias (FIABCI) e vice-presidente da Associação Brasileira de Shoppings Centers (ABRASCE).

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