Habilidade ou vocação?
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de agosto de 1997
José Roberto Whitaker Penteado 
Em recente conferência que fez, no Rio, sobre seu tema favorito - da preservação da terra e de sua biodversidade - Leonardo Boff citou os indígenas brasileiros e os maias como povos felizes sem as nossas preocupações civilizadas. Os índios brasileiros não eram capazes de ser escravos simplesmente porque não conseguiam entender a função do trabalho - já que, no nosso clima, era quase desnecessário trabalhar. Segundo Boff, os maias dedicavam 47 dias por ano ao trabalho e, o restante do tempo, era dedicado às artes, aos rituais e às festividades. Há, certamente, mais sabedoria nesses comportamentos do que na nossa compulsão para o trabalho, que resulta na alienação afetiva característica das nossas sociedades ocidentais.
Outro fator neurotizante, contudo, é o conceito de carreira ou vocação. Quando era garoto, era costumeiro perguntar: O que é que você vai ser quando crescer?, numa nítida sugestão de que você fedelho, simplesmente ainda não existia. Eu respondia oficial de marinha, porque os via no cinema em impecáveis fardas brancas com botões dourados, viajando pelo mundo em navios de guerra. Quando - um pouco mais tarde - fui fazer testes vocacionais, deu que podia ser músico, escritor, matemático, esportista ou comerciante, o que decididamente não ajudou as coisas, mas me fez pensar em ser psicólogo - pretensão essa rapidamente demolida por meu pai. O que faz de prático um psicólogo? perguntou-me. Estávamos em 1956...
Muitos anos e muitos empregos e desempregos depois, descobri que o ingrediente básico para ganhar a vida - e dar sustento decente à família - objetivos de vida da minha geração - não era uma vocação, mas sim a capacidade de utilizar, de forma combinada, os skills - ou habilidades - que adquiri ao longo dos anos. Por exemplo: naquele tempo, escrever à máquina era um dos mais importantes e lembro de colegas que só eram capazes de escrever à mão e ficavam dependendo das secretárias. Por mais ridículo que pareça, isso fez com que chegassem atrasados para compromissos e perdessem oportunidades profissionais importantes. Uma verdadeira insustentável leveza do ser profissional.
Acho que me tornei um doer, conjugando as habilidades que aprendera - e continuo aprendendo. Transformar essas habilidades em elementos vendáveis, na sociedade, veio provavelmente da minha intimidade com o marketing - e de um outro episódio pertinente, que ocorreu numa conversa com um empresário de propaganda, que queria me convencer a ir trabalhar com ele. Dizia-me: Você não imagina quanto dinheiro anda circulando por aí, entre as empresas. Tudo o que você precisa saber é como desviar uma parte dele para o seu bolso, produzindo alguma coisa de que as empresas precisem. A percepção pode ser pouco sofisticada, mas é competente, no seu contexto.
Acho que essa percepção é que fez com que Mikhail Gorbachev dissesse, certa vez, que o mercado nasceu com a civilização, não é uma invenção do capitalismo. Ele serve para melhorar o padrão de vida das pessoas e não tem nada de contraditório com o socialismo. Muito diferente, por exemplo, do que escreveu o poeta Ezra Pound, um filho da sociedade capitalista: Nada que se escreva para ganhar dinheiro presta. Só serve o que for escrito CONTRA o mercado.
Objetivamente, nada se pode contrapor à perceptiva sabedoria desses povos antiquíssimos citados por Leonardo Boff. Trabalhar pode ser, às vezes, até muito agradável, mas dificilmente canaliza, de forma satisfatória, todo o nosso potencial criativo - a nossa anima. É nas horas de lazer que a maioria das pessoas se revela completamente. Mas será que, de certa forma, não teremos adotado um comportamento pelo menos parecido com o dos maias, ao estabelecermos uma semana de trabalho de cinco dias e um calendário pontilhado de feriados, além das férias obrigatórias?
Isso significa que - numa continha rápida - desconsiderando as horas de sono, distribuídas mais ou menos democraticamente pela população, dedicamos a trabalhar uns 215 dias por ano - pouco mais da metade do tempo de que dispomos para viver. Não é tão absurdo assim, se considerarmos que a sociedade do consumo oferece uma variedade muito maior de opções de lazer do que as que eram acessíveis aos maias...
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing


