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O GELO BROTOU DO CHÃO -

Há 45 anos o Paraná registrou a pior geada de sua história

Em meio a uma pandemia que impõe perdas ao setor produtivo , Estado relembra tragédia que transformou sua economia

Vitor Ogawa - Grupo Folha
Vitor Ogawa - Grupo Folha

O dia 18 de julho de 1975 foi aquele que fez o gelo brotar do chão e queimar os cafezais do Estado. Foi o dia em que o ouro verde dos cafezais se transformou em cinzas, muito antes do incêndio do teatro homônimo. Da noite para o dia o que era riqueza virou tristeza. A temperatura atingiu 6º C negativos. A Folha de Londrina do dia seguinte estampou na manchete o título “Não sobrou um único pé de café.” A sub manchete relatou também que o Ministro da Indústria e Comércio e o presidente do IBC vieram a Londrina no sábado (19) para fazer a avaliação dos estragos. 


A manchete do dia seguinte apontava a destruição dos cafezais
A manchete do dia seguinte apontava a destruição dos cafezais | Reprodução/Folha de Londrina
 


O analista do Deral (Departamento de Economia Rural), Paulo Sérgio Franzini, relata que ainda era uma criança quando tudo isso aconteceu. “Eu morava em Mandaguari e meu pai tinha uma plantação de café. Lembro que o carro não pegava de jeito de nenhum. Ele foi ao ao sítio por volta das 15 horas e naquele horário ainda tinha gelo no chão nas partes mais úmidas. “Foi algo assustador. Como foi de uma hora para outra, a maioria dos produtores não estava preparada para isso. Houve migração das famílias que trabalhavam nas áreas rurais para as áreas urbanas.” Segundo ele, naquela época as famílias numerosas eram as mais procuradas para trabalhar na lavoura. “Cada membro da família era o que chamavam de ‘enxada’. A família tinha que ter no mínimo quatro enxadas para trabalhar na lavoura.  Quando se mudaram para a área urbana, a maioria começou a realizar serviços voltados para serviços gerais. Ainda tinham serrarias que absorveram parte da mão de obra. O  próprio poder público absorveu parte desses trabalhadores”, destacou.


Franzini aponta que o Paraná já estava começando a ter uma diversificação das culturas a partir do início dos anos 1970, mas a geada negra acelerou esse processo, inclusive de mecanização da cultura. “Não foi uma decisão planejada. Foi uma necessidade de mudança. Ainda bem que os setores da indústria e do comércio foram alavancados e absorveram parte desse impacto, mas foi assustador do ponto de vista econômico e social. Muitas pessoas tiraram suas próprias vidas naquela época”, apontou.


O instrutor de classificação de café para formação de profissionais e colaborador do Iapar, Francisco Barbosa Lima, é engenheiro agrônomo desde aquela época e estava retornando de Botucatu (SP) naquele dia. “Lá já estava com os cafezais queimados. Eu pensei que se lá estava assim, aqui no Paraná tinha dizimado tudo”, recorda-se.


“Quando cheguei estava tudo queimado. Eu estava de carro. Naquela época o Paraná possuía 1,120 milhão de hectares de café. Hoje possui 38 mil hectares de café. No auge da produção, nos anos 1960, havia 1, 8 milhão de hectares de café no Estado”, apontou.


“Dois anos depois a área de café havia sido reduzida para 600 mil hectares, ou seja quase a metade. Antes da Geada Negra a havia a média de dois trabalhadores por hectare entre fixo e temporário. Isso equivale a quase um milhão de trabalhadores. Houve uma migração forte para Curitiba e outras áreas urbanas. A mão de obra não estava preparada para essa mudança. Não havia qualificação profissional. O drama não foi só econômico. Foi um drama social também”. 


Segundo ele, o Paraná era na época o que Minas Gerais é hoje, ou seja responde por mais de 50% da produção de café do País. “Naquela época, como tinha o fator de instabilidade provocado pelas geadas, o produtor tinha o costume de segurar safra de um ano para o outro e o preço do café aumentava quando ocorria geada. Hoje, como a área de produção do café diminuiu muito no Paraná, quando acontece geada não altera o preço e o pequeno produtor leva prejuízo porque o preço não aumenta. A situação mudou para muito pior quando ocorre geada”, expôs. Ele contabilizou que o Paraná enfrentou seis geadas em 12 anos: em 1969 (geada forte), 1972 (geada forte), 1975 (geada negra), 1978 (geada leve), 1979 (geada leve), 1981 (geada forte).  “Depois ficamos quase 13 anos sem geada.”


Segundo ele, para voltar a ter café a um preço razoável o governo precisaria adotar uma política pública de apoio ao produtor e criar um seguro para a produção de café. “Sem esse apoio o produtor fica vulnerável e instável. O produtor se sente inferior”, destacou. 


Barbosa explica que o único município que foi na contramão dessa redução cafeeira foi Carlópolis (Norte Pioneiro). Segundo ele isso ocorreu porque na faixa de represa não ocorreu a geada. “Como a lavoura não queimou com geada, Carlópolis aumentou área de 700 hectares de café para cinco mil hectares de café”, observou.


Ele observou que se a geada acelerou a diversificação da cultura, hoje o Paraná praticamente voltou a ter uma monocultura, desta vez de soja. “Isso não é muito bom, embora a soja seja mais estável que o café. Mas se ocorrer alguma coisa com a soja pode ser muito perigoso”, destacou.

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