Guinada nos juros (Joelmir Beting)
Joelmir Beting
Em situações de emergência, o plano mais arriscado é, certamente, o mais seguro.
Publius Cornelius Tácito (55-118), historiador romano.
Guinada nos juros
Piso do sistema financeiro, a Taxa Básica do Banco Central (TBC), rebaixada para 21,75% ao ano, deve declinar para aproximadamente 20,25% na próxima reunião do Copom, marcada para 24 de junho. Palpite coletado ontem no mercado de São Paulo. Em agosto, a TBC recuaria para 18,70%, igualando a taxa de outubro, antes da chantagem emocional importada da Ásia.
Como é que é? A taxa de outubro não era de 20,70%? Mudança de metodologia na calibragem da TBC explica a confusão. Até outubro, a TBC anualizada resultava da taxa mensal acumulada em 12 meses. De lá para cá, o Conselho de Política Monetária (Copom) considera na fixação da TBC anual os dias úteis do período. Por esse novo critério, o piso de outubro teria sido 18,70% e não 20,70%.
Tecnicamente, a redução da taxa básica da economia brasileira guarda relação direta com a atração estimulada da poupança estrangeira. O piso competitivo da TBC resulta de uma combinação esotérica: 1) ganho líquido do investidor no mercado americano ou europeu; 2) índice provável da correção cambial no Brasil; 3) taxa subjetiva do chamado Risco Brasil; 4) cunha fiscal embutida na TBC cheia; 5) spread da intermediação financeira; 6) taxa subjetiva do chamado Risco Global em mercados emergentes. Na ponta do lápis, o investidor estrangeiro estaria bem servido hoje com uma TBC de 22%, com ganho líquido de 9%.
Politicamente, são outros quinhentos por cento. Até quando a política monetária, engastada na questão cambial, continuará refém da poupança estrangeira - a do fechamento do déficit externo em conta corrente, subproduto do nosso desarranjo fiscal? Ou não terá chegado a hora de soltar as amarras da economia brasileira, já consolidada a estabilização da moeda nacional?
Única certeza: não dá para correr com os dois cavalos no mesmo páreo: o da atração festiva do capital externo e o da reativação do consumo, da produção e do emprego. Na linha do stop-and-go, a prioridade da política monetária desloca-se do front externo para o campo interno, terreno igualmente minado.
Essa guinada tem o sinal verde de reservas cambiais que se aproximam de US$ 80 bilhões na virada do semestre.
Deve ter havido pressão palaciana para a redução da TBC de 23,25% para 21,75%, quando o mercado financeiro, aqui dentro e lá fora, contentava-se com 22,50%. A ordem é reverter a curva do desemprego antes da decolagem da campanha eleitoral de rua. A exploração eleitoreira de tensões sociais tópicas pode abalar o crédito na reeleição do presidente. Isso, sim, triplicaria o Risco Brasil na mesa de opções do investidor estrangeiro.Elo perdido
- Os juros declinam na base, mas não recuam na ponta. O capital de giro que movimenta o setor produtivo ainda custa mais de 45% ao ano no banco da esquina. E o crediário para consumo não arreda pé da faixa de 200% ao ano.
Nos bancos
- Pesquisa mensal da Anefac, divulgada ontem, revela que, em abril, os bancos cobraram, em média, 158% ao ano no crédito direto ao consumidor, 251% no cheque especial e 265% no rotativo dos cartões de crédito.
Nas lojas
- No crediário de loja, a média de sete áreas metropolitanas cravou 187% ao ano (9,2% ao mês). A menor gula deu-se em Belo Horizonte: 176%. A maior, em São Paulo: 194%. A do Rio bateu com a média nacional: 187%.
Patinando
- A economia interna vai continuar patinando na usura de balcão. Com spread acima de 150%. A atividade-meio virou atividade-fim. E dá-lhe inadimplência e desemprego.





