Brasília - Os deputados integrantes da comissão especial que analisa o caso da Parmalat vão começar a colher assinaturas para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação do grupo italiano no País. ''Não tem dúvida'', sentenciou o presidente da comissão, Waldemir Moka (PMDB-MS). ''É uma megafraude que envolveu o Brasil no esquema.'' Ele acredita que uma CPI poderá investigar as irregularidades e impedir que se repitam com outras empresas.
Os parlamentares concluíram que seria impossível seguir com a apuração sobre a atuação da Parmalat no Brasil sem a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos envolvidos. Uma comissão especial não pode fazer isso, mas uma CPI pode. Na segunda-feira passada, fontes da Polícia Federal também anunciaram que iriam pedir à Justiça a quebra do sigilo dos dirigentes da empresa.
A idéia da CPI ganhou força depois dos depoimentos, ontem, do administrador da Parmalat Participações, Andrea Ventura, e do diretor-presidente da Carital do Brasil, Carlos Alberto Padeti. Os dois executivos irritaram os parlamentares porque não responderam a nenhuma pergunta que tivesse como objetivo esclarecer suspeitas de irregularidades. ''As pessoas são de uma capacidade de amnésia impressionante'', comentou, a certa altura, o deputado Paulo Rubens Santiago (PT-PE). ''Está difícil de engolir'', concordou o deputado Odacir Zonta (PP-SC).
Ventura disse que está no Brasil desde o segundo semestre de 1999, mas só assumiu o posto de diretor-administrativo e financeiro em fevereiro de 2000. Ao longo das quatro horas de depoimento, ele não respondeu a nenhuma pergunta sobre fatos ocorridos antes dessa data.
Ao longo da reunião, porém, ficou claro que as empresas do grupo passaram por um processo de reestruturação entre 1998 e 1999, em que a maior parte das dívidas foi transferida para uma subsidiária chamada Carital do Brasil. O diretor-presidente da empresa, Carlos Alberto Padeti, admitiu que a companhia foi criada para absorver as dívidas da Parmalat Participações. ''A operação Carital foi feita em 99'', disse Ventura. ''Desde então, não se fez mais nada para mascarar os resultados.'' Depois disso, a Parmalat Participações acumulou dívidas que somam US$ 1,6 bilhão.
A Carital, por sua vez, registra dívidas de R$ 1,966 bilhão. Desses, R$ 180 milhões são dívidas tributárias inscritas no novo Refis. Chamou a atenção dos parlamentares o fato de a Carital do Brasil ser administrada pela Carital Foods, uma empresa com sede no paraíso fiscal de Curaçao, nas Antilhas Holandesas. Padeti disse não saber quem são exatamente os donos da Carital Foods. Seu antecessor no cargo, Francisco Estevão Mungioli, disse que a participação societária na empresa é tão emaranhada que os próprios executivos da empresa não a entendem.
Os deputados da comissão devem ouvir, hoje, os ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues, e do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto. À tarde, serão ouvidos representantes dos bancos credores do grupo, entre eles o Banco do Brasil. Segundo Andrea Ventura, a Parmalat Participações deve cerca de US$ 5 milhões a quatro instituições financeiras brasileiras: Banco do Brasil, Fibra, Rural e Bic. Ele informou, ainda, que os administradores do grupo na Itália analisam a possibilidade de realizar uma reunião com os credores da Parmalat Participações do Brasil, cujas dívidas são garantidas pela sede.

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