Grevistas criticam peso da reforma sobre mais pobres
Manifestantes em Londrina criticam capitalização e ampliação da contribuição para se aposentar diante de baixo índice de formalização entre trabalhadores de baixa renda
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de junho de 2019
Manifestantes em Londrina criticam capitalização e ampliação da contribuição para se aposentar diante de baixo índice de formalização entre trabalhadores de baixa renda
Fábio Galiotto e Luís Fernando Wiltemburg - Reportagem Local 

Os manifestantes que participaram na sexta-feira (14) da greve geral contra a Reforma da Previdência, em Londrina, consideram que a proposta do governo Jair Bolsonaro prejudica muito mais os pobres do que gera redução de benefícios. Convocado por centrais sindicais, o protesto começou na porta da garagem dos ônibus urbanos já de madrugada, foi até o ponto de concentração em frente ao terminal urbano, para depois sair em passeata pelas principais ruas da região central, até terminar no Calçadão.
A visão majoritária entre os entrevistados pela reportagem foi de que o trabalhadores foram incumbidos de pagar a conta pela crise econômica e pelas dívidas dos empresários com a Previdência Social. Os pontos mais criticados foram a ampliação para 40 anos de contribuição para obter acesso a 100% do benefício e para 20 anos para se ter acesso à aposentadoria.
Para os manifestantes, são os mais pobres que têm maior dificuldade de conseguir carteira assinada por tanto tempo, há alto índice de informalidade no mercado e poucas propostas de trabalho para pessoas acima de 45 anos. “Sou professor concursado e se tiver que trabalhar dez anos a mais, de certa forma, não seria tão ruim porque tenho meu emprego garantido, mas conheço pessoas de 55 anos que estão desempregados, não conseguem ser inseridos no mercado de trabalho e precisam de tempo para se aposentar. Esse aumento de tempo de contribuição e a idade mínima vai impactar essas pessoas, que não têm emprego garantido”, diz Mauro Antônio de Moraes.
Assim, boa parte dos trabalhadores que ganham menos de dois salários mínimos acabariam por depender do BPC (Benefício de Prestação Continuada), limitado a um salário mínimo e pago a idosos e deficientes sem condições de se manter ou de serem sustentados pelas famílias. A modificação nas regras para essa modalidade e na aposentadoria rural também foram bastante citadas.

Por outro lado, a grande maioria dos manifestantes que aderiram à greve geral desta sexta-feira e foram ouvidos pela FOLHA se diz favorável a algum tipo de mudança na Previdência, mas não na forma como tramita hoje no Congresso Nacional e desde que seja discutida com os trabalhadores, que foram deixados de lado no atual debate. “A reforma da Previdência é necessária, mas depois de uma reforma política, depois que fizer com que as grandes empresas recolham [para a Previdência], que ninguém ganhe mais de R$ 6 mil de aposentadoria. Depois de alguns anos, façam um reforma justa, porque hoje ninguém emprega um pobre com 60, 65 anos em uma indústria, como trabalhador braçal”, diz o autônomo Jiones Oliveira.
Sozinho, com um cartaz em que dizia estar no protesto para garantir a aposentadoria do filho, o autônomo criticou também a proposta de capitalização para jovens que entram no mercado de trabalho. “É uma reforma feita para enriquecer bancos. Com a capitalização, você vai ganhar mil reais, mas uma financeira te dá um plano de cem reais e um plano de previdência privada.”
O motorista carreteiro e trabalhador rural Ivan José Leme dos Santos afirma que já chegou aos 65 anos e ainda não conseguiu se aposentar. Com a reforma, ele, que faz parte do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) prevê mais dificuldades. “É difícil comprovar a contribuição, o patrão não registra, é difícil declarar. Ainda vou conseguir porque trabalhava com caminhão, mas o passado na roça não tem como comprovar. Não entendo bem dessas reformas, mas acho que essa que está aí, que eles querem fazer, pra gente, não funciona.”
A professora da rede municipal Vanessa Cretuchi levou o marido e os filhos, de 9 e 14 anos, ao protesto. “Com a nova reforma, teremos de trabalhar dez anos a mais. Para nós está sendo terrível, mas também sou a favor dos nossos companheiros da zona rural. Quem está sentado no escritório se aposentar com 70 anos não deve ser tão ruim, mas quem está no campo, não dá.”
Já o técnico administrativo em educação Weslei Trevizan sugere que a capitalização não deu certo onde foi implantada e está em revisão. “O sistema de capitalização muda a lógica da solidariedade, que a Seguridade Social e a Previdência preveem hoje. Acho que esse é um ponto prejudicial para a maioria dos trabalhadores, porque vai jogar toda a responsabilidade para o trabalhador e tirar do Estado, do empregador. Tem de ser mais compartilhado isso.”
Representante do Sindsaúde-PR (Sindicato dos Trabalhadores da Saúde Pública do Estado do Paraná), Sérgio Luís Conojó acredita que as idades mínimas de aposentadoria - de 65 anos para mulheres e 62 anos para homens – e os 40 anos de contribuição para receber o benefício em valor integral vai prejudicar quem está na ativa ou quem ainda vai ingressar no mercado de trabalho.
Para o sindicalista, uma reforma da previdência tem de mexer, prioritariamente, com os altos salários dos agentes políticos. “Seja ele um servidor público ou celetista, o trabalhador vai sofrer prejuízos. Daria para fazer uma reforma, mas não essa que está no Congresso.”
A presidente do Siemaco (Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Asseio e Conservação) de Londrina, Izabel Aparecida de Oliveira Petit Maitre, recorda que as aposentadorias só existem por lutas de trabalhadores do passado e que a reforma proposta vai impedir que as pessoas mais jovens não terão mais condições de se aposentar. “Acho muito triste, como trabalhadora, que, depois de tantos anos de luta, a pessoa não consiga ter pelo menos o sustento para estar em paz. A nossa guerra é para que não seja tirado nenhum direito conquistado ao longo dos anos”, defende.
O empresário do ramo alimentício Mateus Arrigoni considera que a principal crítica à reforma da Previdência que tramita é a desigualdade que vai criar entre classes. “Vai prejudicar muito o trabalhador. Eu sou empresário e espero poder receber, um dia, pelo que contribuí, mas o que vejo no dia a dia é que as pessoas que têm maiores ganhos não estão preocupadas porque elas conseguem fazer investimentos, mas o trabalhador não tem essa condição. Não adianta achar que eu vou ter dinheiro [para investir] porque eu não tenho”, afirma.
O empresário admite que há necessidade de fazer reformas no que está defasado, mas não aceita qualquer proposta. “Claro que, se falar que vai tirar direitos, qualquer trabalhador vai ficar com o pé atrás. Não adianta nos dizer que tem de fazer caridade.”
OUTRAS PAUTAS
Os manifestantes vestiram camisetas e ostentaram faixas e cartazes para não apenas a reforma, mas também contra outras políticas específicas, como os cortes no orçamento da educação, a homofobia, e a violência contra a mulher. Ainda, muitos lembraram o assassinato ainda não esclarecido da vereadora carioca Marielle Franco.
Também houve grupos com com faixas e camisetas que pediam "Lula Livre", criticaram o governo Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Desde domingo (9), o ex-juiz federal se vê envolvido em um escândalo com vazamentos de conversas de aplicativos de mensagem que indicam possíveis acertos entre o juiz e procuradores da Lava Jato em julgamentos de fases da operação.


