Atenas - O governo da Grécia comemora a vitória do "não" no plebiscito de ontem contra um acordo com os credores internacionais. Com 80% dos votos apurados, 61% haviam optado pelo "não" e 39% pelo "sim", sem chances de reverter o cenário. O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, entrou em contato com líderes europeus na noite de ontem para tentar retomar as negociações com o bloco hoje. O ex-primeiro-ministro grego Antonis Samaras anunciou que vai renunciar à presidência do principal partido de oposição do país, o Nova Democracia. Samaras está entre os políticos que lideraram a campanha pelo "sim" no plebiscito. Ele foi primeiro-ministro da Grécia entre 2012 e 2015.
Assim que a apuração dos votos começou a indicar a vitória do "não" no plebiscito, enrolados na bandeira da Grécia, centenas de partidários do "não" tomaram a icônica praça Syntagma, no coração de Atenas, onde os protestos contra as medidas de austeridade impostas pela União Europeia se realizam desde o início da crise, há cinco anos.
Vendedores ambulantes de bandeiras da Grécia brotaram na praça com a divulgação dos resultados. O ambiente era festivo e ruidoso, como é do agrado dos gregos, com música e apitaço. A euforia não apaga as preocupações com o futuro, mas traduz o estado de espírito da maioria da população grega, cansada dos sacrifícios impostos pela política de austeridade e cortes.
"Não existe mudança sem risco", disse a enfermeira Izabela Galatou, 32, que ganha hoje 700 euros por mês, 200 euros menos que seu salário antes da crise. "Sinto que estou andando para trás." Os pais de Izabela, um professor e uma enfermeira, perderam mais de 6 mil euros de renda anual com os cortes orçamentários adotados pelos governos gregos pós-crise. O desemprego na Grécia atinge cerca de 25% da força de trabalho.

ENTENDA A CRISE


O ministro de Finanças, Yanis Varoufakis, celebrou o resultado, afirmando que a população deu um "não" a cinco anos de "hipocrisia", em referência ao período de austeridade fiscal pós-crise de 2010. Ele acredita num acordo em 24 horas.
As autoridades gregas vão usar dois argumentos para tanto: o respaldo da população para que o governo não aceite os termos da atual proposta e o recente relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhecendo que a dívida do país precisa ser perdoada em pelo menos 30%. Já o Banco Central grego deve fazer um apelo para o Banco Central Europeu (BCE) aumentar o limite da assistência emergência de liquidez (ELA), para evitar o colapso bancário a partir de amanhã, quando as agências devem reabrir. O BCE tem mantido a ajuda no mesmo patamar há mais de uma semana.
A questão agora é como os líderes europeus vão reagir a esse provável resultado. A chanceler alemã, Angela Merkel, pretende ir a Paris se reunir com François Hollande para discutir a situação grega após a votação.

mockup