Grãos devem influenciar preços da carne
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de julho de 2008
Alexandre Inácio<br>Agência Estado 
São Paulo - Os detalhes do Plano Agrícola e Pecuário para o ano-safra 2008/09 acabaram de ser divulgados pelo governo e, apesar do nome, as primeiras análises indicam que a agricultura será o setor mais beneficiado diretamente. Aumento de preço mínimo para algumas culturas, ampliação de limite de crédito para o plantio, entre outras medidas foram tomadas para que a próxima colheita chegue a pelo menos 150 milhões de toneladas. Mesmo sem ter um plano especifico e deixada de lado pelo governo, segundo alguns críticos, a pecuária de corte tem o que comemorar o aumento da oferta de grãos para a próxima safra.
A pressão para se evitar a abertura de novas áreas fará com que a expansão da área plantada na safra 2008/09 ocorra sobre regiões de pastagens. Mais do que a pressão ambiental, essa tendência fará com que dois movimentos ocorram simultaneamente: maior disputa por terras entre a pecuária e a produção agrícola ou a melhora da produtividade da pecuária bovina, o que é mais provável que ocorra. Para a pecuária se tornar mais eficiente ela terá que usar mais grãos na dieta dos animais, especialmente na fase de terminação. Na verdade, quanto maior for a próxima safra, melhor será para o pecuarista, afirma Fabiano Tito Rosa, analista da Scot Consultoria.
Dentro desse cenário, a tendência que se desenha para a pecuária de corte é de que os grãos passem a ter uma influência cada vez maior na formação de preços da arroba e, por conseqüência, no valor final da carne vendida ao consumidor. Na avaliação de Tito Rosa, a pecuária brasileira sempre foi menos dependente dos grãos do que em outros países, onde a base da alimentação é formada por soja e milho, principalmente. Nossa pecuária manterá o pasto como base alimentar, pois temos área, clima e todas as condições para isso, mas a necessidade de ser mais eficiente fará o número de animais em confinamentos crescer cada vez mais, afirma.
No Mato Grosso, por exemplo, o número de confinamentos está crescendo, seguindo o aumento da produção de grãos. Está cada vez mais caro tirar o milho e a soja do Mato Grosso e enviar para os portos. As empresas de aves e suínos perceberam isso há mais tempo e já foram para lá. O que vemos agora é um número cada vez maior de confinamentos surgindo para também consumir esses grãos, afirma Sérgio de Zen, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Segundo o professor, apenas no Mato Grosso, o número de animais confinados deve crescer 25% apenas neste ano e chegar a 470 mil cabeças. Esse número representa aproximadamente 30% de todos os animais abatidos entre os meses de setembro e novembro.
Com isso, a pecuária de corte seguirá, até certo ponto, o caminho já percorrido pela carne suína e de frango. Atualmente, cerca de 70% do custo de produção de aves e suínos é formado por grãos e são influenciados diretamente pela oscilação das cotações no mercado.
Para a próxima safra, o aumento da oferta deve reduzir a pressão sobre os preços da carne de frango, principalmente, substituto direto da carne bovina em momentos de aumento de valores. A carne de frango e de suínos nada mais é do que o milho transformado. Um maior volume de grãos na próxima safra tem forte impacto nessa cadeia, afirma Tito Rosa.
O consultor lembra, no entanto, que o aumento da oferta não significa queda nos preços das carnes. Uma safra maior vai reduzir a pressão sobre o custos de produção das carnes. Se a oferta de grãos não for maior os custos vão subir ainda mais do que já subiram neste ano, afirma.


