Brasília O Brasil deu um sinal mais forte ontem de que o Mercosul não cumprirá o prazo de entrega de sua proposta de abertura de mercado para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), marcado para dia 15 de fevereiro. Depois de um almoço com seus colegas do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, e da Agricultura, Roberto Rodrigues, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, indicou que a proposta deixada pelo governo anterior não atende às orientações da atual administração e terá de ser novamente submetida à avaliação do empresariado e da sociedade civil. O atraso, conforme informou, poderá alcançar 30 dias.
''Os prazos da Alca são indicativos. Não são os mesmos para se pagar o aluguel ou uma nota promissória, e podemos tratá-los com flexibilidade'', afirmou. Segundo ele, na sexta-feira, o assunto foi tratado na conversa que manteve com o representante dos Estados Unidos para o Comércio, Robert Zoellick, em Brasília. Furlan e Rodrigues também participaram do encontro. Na ocasião, Amorim adiantou ao líder negociador americano que um possível atraso não deverá ser interpretado como sinal de desinteresse do Brasil nas negociações.
O encontro de ontem teve a finalidade de compor uma posição de governo em torno das questões prementes da Alca. O prazo de entrega das ofertas preliminares, considerado curto por Amorim, foi o principal ponto da agenda. Embora reconheça que o atraso não é um objetivo em si, o chanceler preferiu deixar essa possibilidade aberta para impedir que o País e seus sócios do Mercosul venham a encaminhar para a Alca ''uma proposta inconsistente''. Rodrigues admitiu que o descontentamento do novo governo em relação à proposta herdada do governo Fernando Henrique Cardoso não está na sua área, mas sim nas ofertas de abertura para os setores industrial e de serviços e mais as regras para compras governamentais e investimentos.
Ele lembrou que, como presidente da Associação Brasileira do Agrobusiness (Abag), havia participado das consultas entre o governo anterior e o empresariado e não considera necessário ''agregar'' nada à versão original do capítulo agrícola. ''Mas em outros setores, é possível que haja mudanças na lista'', reconheceu.
O possível atraso no envio da oferta do Mercosul deverá desmontar a estratégia preparada pelos principais negociadores para outra rodada prioritária as negociações sobre o livre comércio entre o bloco sul-americano e a União Européia. Essa estratégia baseava-se no fato de que, ao enviar sua oferta até o dia 15, o Mercosul poderá receber todas as propostas encaminhas, em especial, a dos Estados Unidos. Dependendo do que for oferecido pelos americanos, principalmente na área agrícola, o Brasil e seus sócios teriam mais poder de barganha na troca de ofertas melhoradas com os europeus, marcada para o dia 28 de fevereiro.

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