Paulo Dias França, caminhoneiro: “dependendo de quanto forem os juros do governo, eu quero o financiamento”
Paulo Dias França, caminhoneiro: “dependendo de quanto forem os juros do governo, eu quero o financiamento” | Foto: Gustavo Carneiro

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou nesta terça-feira (16) uma linha de crédito para o caminhoneiro autônomo de até R$ 30 mil para compra de pneus e manutenção de veículos. A proposta está sendo definida pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e terá R$ 500 milhões disponíveis na primeira liberação. Taxa de juros e prazo para pagamento não foram divulgados.


O crédito será centrado em caminhoneiros autônomos, que tenham até dois caminhões por CPF. "É para garantir que o autônomo tenha acesso a esse importante instrumento. Temos reconhecimento de que é um problema bastante sério, que impacta a segurança do motorista e das demais pessoas nas rodovias", disse Onyx em coletiva de imprensa.


Com medo de uma greve como a de maio do ano passado, o governo tenta agradar a categoria. Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro suspendeu um reajuste de 5,74% determinado pela Petrobras sobre o óleo diesel, decisão que levou a companhia a perder R$ 32 bilhões em valor de mercado na Bolsa.


Embora ainda não detalhada, a proposta de financiamento para manutenção agradou a maioria dos caminhoneiros com os quais a reportagem conversou nesta terça-feira na PR-445. “Parece muito bom. Dependendo dos juros eu pegaria”, disse Reinaldo Oliveira Santos, autônomo de São Paulo, que tem um Mercedes Benz modelo 1113, ano 1986, e transporta balcões refrigerados. “Com R$ 30 mil, eu faria uma reforma geral no caminhão: motor, pneus, carroceria.”


Santos leva o caminhão para a oficina quando necessário. Não faz manutenção preventiva. “O caminhão é de ferro, mas de repente quebra. Aí tem de parar para arrumar”, alega.


O custo com pneus costuma ser maior que o da mecânica. Se for trocar os 10 pneus do veículo, Santos gastaria R$ 15 mil. “Se não andar muito pesado, o pneu novo chega a durar dois anos”, explica. No ano passado, ele calcula ter gastado R$ 25 mil com manutenção, incluindo troca ou recapagem de pneus. “Uma conta na oficina nunca fica menos de R$ 1 mil.”


Na semana passada, o curitibano Paulo Dias França, que transporta carga geral, teve de emprestar R$ 4,5 mil para trocar o diferencial do seu Ford Cargo, modelo 1418, ano 1988. “Dependendo de quanto forem os juros do governo, eu quero o financiamento”, afirma. Há pouco tempo, ele gastou R$ 2 mil para recapar quatro pneus.


POSTERGAÇÃO

Nei Wilson Ribeiro tem um Volvo VM 270, ano 2013, e também se interessou pelo financiamento. “Tem muita manutenção que eu vou empurrando com a barriga.” A última vez que ele revisou o freio, o sistema estava praticamente inutilizável. “Não dava mais para rodar.”


Ribeiro diz que seu faturamento bruto mensal é de R$ 12 mil. Descontando diesel e a parcela do financiamento do caminhão (R$ 3,5 mil), sobram R$ 4,3 mil, valor do qual tem de sair o sustento da família e a manutenção do veículo. “Já tenho três parcelas atrasadas da escola da minha filha.”


Já para Vanduir Blanco Regina, de Curitiba, a proposta de financiamento é uma armadilha. “É para gente ficar mais endividado. Mesmo que os juros fossem bons eu não pegaria. É mais um abacaxi para a gente”, alega.


A contribuição que o governo deveria dar à categoria, na opinião dele, é controlar os preços do diesel e do pedágio e fiscalizar o cumprimento da tabela de frete. “Nós queremos ter condições de trabalho, poder pagar a manutenção com os fretes que fazemos.”


MOVIMENTO FRACO

Na Auto Elétrica Portelão, os caminhoneiros autônomos gastam cerca de R$ 800 por mês, segundo a sócia Márcia Cristina Costa. No mesmo local, as empresas frotistas pagam R$ 3 mil por veículo revisado por mês. “Os caminhoneiros só fazem manutenção quando não têm mais jeito”, afirma.


Neste ano, de acordo com o eletricista Roberto Carlos Costa, a situação está ainda pior. “A gente sempre espera que, depois do Carnaval, o movimento vai aumentar, mas dessa vez não aconteceu”, ressalta.


Na mecânica 445 Norte Diesel, o sócio Márcio Tobias atesta que os caminhoneiros autônomos adiam o quanto podem a manutenção. A revisão de freio e retífica parcial de um Scania 111, ano 1990, que estava na oficina nesta terça-feira (16), sairia por R$ 12 mil. “A revisão completa de um motor sai R$ 25 mil”, conta Tobias.


BANCO DO BRASIL

Segundo o ministro Onyx Lorenzoni, a linha de crédito começará a ser disponibilizada pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. "Depois para os demais brancos e cooperativas de crédito pelo Brasil", afirmou sem dar data de quando a linha será efetivamente liberada.


O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, disse que o governo vem conversando com representantes dos caminhoneiros, por meio do WhatsApp.


Outra medida que Bolsonaro propõe é o cartão-caminhoneiro, pelo qual os motoristas terão garantida a estabilidade de preços nos postos de combustíveis de bandeira BR.


No WhatsApp, motoristas falam em 'cortina de fumaça'

Líderes dos caminhoneiros não ficaram satisfeitos com o pacote de medidas anunciadas nesta terça-feira (16) pelo governo Jair Bolsonaro para ajudar a categoria. Nos grupos de WhatsApp acompanhados pela Agência Estado, o plano foi visto como uma "cortina de fumaça", uma forma de protelar uma possível greve dos motoristas. Alguns já falam, com exaltação, em nova paralisação em 21 de maio - exatamente um ano depois da greve que paralisou o País - caso a situação não melhore.
Os caminhoneiros afirmam que não estão pedindo dinheiro para o governo, mas sim melhores condições de trabalho.


Nas discussões, eles afirmam que soluções como a linha de crédito para manutenção do caminhão, com taxas menores, já foi testada em outras ocasiões, mas não são colocadas em prática.


A grande reclamação é que a situação dos caminhoneiros está tão precária que poucos conseguiriam ter acesso ao crédito. Muitos, dizem eles, estão com o nome sujo na praça.


Além disso, pegar crédito agora seria decretar a morte dos motoristas em alguns anos. "Estão dando a corda para gente se enforcar", dizia um deles.


Logo após o anúncio da linha de crédito para profissionais autônomos, Wallace Costa Landim, conhecido como Chorão, um dos líderes dos caminhoneiros, disse que a medida agradava a categoria e até poderia evitar a greve, mas esperava uma manifestação de Bolsonaro para bater o martelo sobre a questão.


"Inicialmente, claro que o pacote agrada (a categoria). Mas preferimos aguardar o que o presidente vai falar para comunicar oficialmente o posicionamento dos caminhoneiros", diz o líder. (Com Agência Estado)

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