Governo prevê superávit nas contas externas
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quinta-feira, 23 de outubro de 2003
Sheila D'Amorim<br> Agência Estado 
Brasília Um mês depois de prever que o País encerraria 2003 com o menor déficit em conta corrente desde 1994, o Banco Central refez os cálculos e já trabalha com um resultado positivo para as contas externas este ano. Desde 1992, o Brasil não consegue esse feito. O superávit, segundo dados preliminares dos técnicos do BC, ultrapassará US$ 1 bilhão. Na verdade, apesar de o novo número oficial ainda não ter sido divulgado, o valor deverá ser mais do que o dobro disso.
De janeiro a setembro, o Brasil registra um superávit de US$ 3,856 bilhões. No mês passado o resultado ficou positivo em US$ 1,338 bilhão, o melhor desde 1980, quando o BC começou a apurar o dado mês a mês. O que puxou esse superávit foi o saldo comercial positivo de US$ 2,7 bilhões.
Para outubro, a projeção do BC é de um resultado novamente positivo em US$ 500 milhões, o que elevará o saldo acumulado no ano para US$ 4,356 bilhões. Se, no último bimestre de 2003, o País apresentar um déficit de US$ 1,7 bilhão, como projetam os analistas de mercado, ainda assim, o saldo final seria um superávit de US$ 2,6 bilhões.
''Com retomada do nível de atividade não deveremos ter saldos comerciais tão expressivos em novembro e dezembro mas, mesmo assim, o desempenho do comércio não será ruim para reverter todo ganho verificado até agora'', afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. A expectativa é que o maior crescimento da economia neste final de ano gere um aumento nas importações. Isso porque como as indústrias estarão produzindo mais, elas deverão demandar mais insumos importados. O aumento nas compras de produtos estrangeiros, por sua vez, diminuirá os saldos comerciais expressivos registrados até agora.
Além disso, as projeções do mercado levam em conta remessas de lucros e dividendos mais fortes e aumento dos gastos de turistas brasileiros em viagem ao exterior. ''Com a volatilidade do dólar no final do ano passado, essas despesas foram reprimidas. Este ano, o ambiente de retomada do nível de atividade combinado com taxa de câmbio mais estável irá elevar esses gastos'', avalia o economista Roberto Padovani, da consultoria Tendências.
Em setembro especificamente, os dados do BC já mostram discreto aumento nos gastos com turismo. Essas despesas passaram de US$ 142 milhões, em setembro de 2002, para US$ 191 milhões este ano. Com isso, após contabilizar também as receitas obtidas pelo País, o superávit registrado em viagens internacionais caiu de US$ 37 milhões para US$ 13 milhões, no mesmo período. Em outubro, os dados preliminares do BC apontam um déficit de US$ 11 milhões. Já as remessas de lucros e dividendo se mantiveram no patamar de US$ 300 milhões.
''Estruturalmente, a conta de serviços e rendas (onde estão registrados os gastos com turismo, fretes, seguros, juros e remessas de lucros e dividendos) é deficitária. Essa conta se desacelerou por força da desvalorização do câmbio em 2002 mas tende a crescer'', explicou Lopes.
Segundo ele, esse crescimento se dará basicamente em serviços já que na parte referente a rendas haverá estabilidade. ''Com a redução da dívida externa, os gastos com juros tendem a cair e as remessas de lucro ainda estão relativamente baixas'', justificou, ressaltando que, em outubro especificamente, haverá uma elevação nas despesas com juros por causa da concentração de vencimento de bônus. Pelos cálculos do BC, esses gastos já somam US$ 1,5 bilhão no mês, praticamente o dobro dos US$ 776 milhões registrados em setembro.
De acordo com os dados do BC, em julho, a dívida externa estava em US$ 217,1 bilhões, abaixo dos US$ 218,8 bilhões verificados em junho. ''Houve uma queda tanto na dívida de curto quanto na de médio e longo prazos por força da taxa de rolagem que foi baixa no primeiro semestre do ano'', disse Lopes.


