Limitação do prazo de financiamento no comércio e restrição à compra de carros por meio de consórcios podem ser medidas adotadas ainda este mês pelo governo para conter o consumo. Os seguidos déficits da balança comercial podem forçar o governo a adotar medidas de restrição ao crédito para segurar o crescimento da economia em 1997. Ainda não há uma decisão final da equipe econômica, mas o assunto está em permanente discussão, assim como o acompanhamento dos dados sobre a atividade econômica. Esses problemas devem ser discutidos novamente na reunião do CMN (Conselho Monetário Nacional) prevista para a próxima semana.
As restrições ao crédito, porém, podem ser adotadas por normativos do Banco Central. Mas as medidas ainda não estão definidas. Os dados sobre o volume de crédito oferecido pelos bancos às pessoas físicas e jurídicas estão sendo acompanhados de perto pela equipe econômica. O que mais preocupa é o volume de crédito para pessoas físicas. Em janeiro do ano passado, o volume de crédito para pessoas físicas foi de R$ 13,3 bilhões, conforme dados do Banco Central.
No começo de março último, o saldo desses empréstimos estava em R$ 20,3 bilhões. O volume de empréstimos para pessoas físicas aumentou principalmente nas operações para aquisição de bens. De 29 de outubro do ano passado até 5 de março deste ano, esse saldo passou de R$ 5,3 bilhões para R$ 8,7 bilhões. Ainda não há decisão sobre as medidas porque o governo quer evitar mudanças desnecessárias. Dois fatores, porém, contribuem para forçar uma decisão neste mês: calendário político e situação da balança comercial.
No caso do calendário político, as medidas de restrição produziriam resultados ao longo do segundo semestre. Dessa maneira, o governo poderia flexibilizar essas restrições novamente no primeiro trimestre do próximo ano.
Ou seja, num cenário de crescimento econômico e estabilidade da inflação, a reeleição de Fernando Henrique Cardoso é muito mais fácil. Se as medidas forem necessárias e demorarem a ser adotadas, o cenário econômico poderá não ser tão bom em 1998.
A deterioração do saldo da balança comercial também pode forçar a equipe econômica a adotar uma decisão.
A estimativa do mercado é que as importações deste mês superem as exportações entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões. Se isso acontecer, o déficit acumulado nos quatro primeiros meses deste ano ficará próximo de US$ 4 bilhões - foi de US$ 3,057 bilhões até março. E parte desse resultado decorre do aumento de consumo. ‘‘O aumento de consumo está acontecendo devido à oferta de crédito e não pelo aumento da renda’’, afirmou o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio de uma consultoria em São Paulo.
Nóbrega disse que o governo tem três outras alternativas: 1) não fazer nada; 2) fazer uma desvalorização cambial; e 3) fazer um ajuste fiscal. ‘‘Mas não é possível adotar agora nenhuma delas’’, disse ele. Dessa maneira, afirmou, as soluções vão se restringindo. ‘‘Há um claro processo de deterioração do saldo da balança comercial e o governo não pode fugir dessa situação’’, comentou Nóbrega.

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