Brasília Depois de registrar um tímido superávit em agosto, as transações do Brasil com o resto do mundo tiveram, em setembro, um resultado positivo de US$ 1,2 bilhão, o melhor desempenho desde 1947, quando o dado começou a ser apurado. O número reflete a diminuição da dependência externa do País e, na avaliação do diretor de Política Econômica do Banco Central, Ilan Goldfajn, pode ajudar o País a reverter o atual cenário desfavorável. Esse ajuste nas contas externas é o trunfo do governo para tentar recuperar a credibilidade diante da crise de confiança que debilitou a economia brasileira este ano.
Mas a retomada da confiança deverá ser gradual. Atualmente, apesar dos sucessivos resultados positivos na conta corrente, o fluxo de capital para o Brasil ainda está bastante retraído. Mesmo com o empréstimo de US$ 3 bilhões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do ingresso de US$ 1,2 bilhão de investimentos estrangeiros diretos, em setembro, faltou dólar no mercado. Isso fez a cotação da moeda estrangeira subir.
A conta capital e financeira, na qual são registrados os investimentos diretos, aplicações em ações, empréstimos, financiamentos e amortizações fechou o mês passado com um saldo negativo de US$ 614 milhões. Uma fonte de pressão nessa conta são os pagamentos de dívidas de empresas brasileiras no exterior. A taxa de rolagem desses compromissos, que costumava ser de 100% em épocas normais, foi de 44% em setembro.
Recuperação ''Países tendem a recuperar a confiança quando há um ajuste importante das contas externas. É um sinal de que não precisamos de tantos recursos. É só rolar o que já temos'', afirmou Goldfajn, destacando que esse é um indicador muito comentado nos encontros que a área econômica do governo tem com investidores estrangeiros. ''Estamos criando uma ponte para recuperação da confiança no futuro. Isso é gradual'', completou o diretor.
Em função dessa recuperação na conta corrente, o BC reviu, pela terceira vez, todas as suas projeções para 2002 e 2003. A expectativa é de encerrar o ano com um déficit externo acumulado em US$ 11 bilhões. Esse valor é US$ 3 bilhões menor do que a projeção anterior de agosto. E há quem diga que essa nova estimativa ainda é conservadora.
O ponto central desse ajuste é a balança comercial que, em função da combinação de dólar elevado com retração no nível de atividade da economia, vem apresentando superávits consideráveis. Em setembro o saldo comercial foi positivo em US$ 2,5 bilhões, indicando que as exportações superaram as importações nesse montante. Nos cálculos do BC, o comércio internacional deverá continuar favorável nos próximos meses.
Em outubro, a expectativa do BC é de um superávit comercial de cerca de US$ 1,6 bilhão. Mas, no final das contas, o resultado das transações correntes deverá voltar a ser deficitário no total de US$ 900 milhões. O que significa que as receitas obtidas com a venda de produtos ao exterior, prestação de serviços, rendas e transferências unilaterais serão inferiores aos gastos no período. ''Em outubro há uma concentração de pagamentos de juros da dívida externa'', explicou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Segundo ele, as despesas líquida com juros da dívida externa em outubro já somavam US$ 1,831 bilhão, até ontem.

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