O governo realizou ontem a troca no comando do Banco Central, substituindo Gustavo Franco pelo atual diretor de Política Monetária, Francisco Lopes, e mudou a política cambial, permitindo que a cotação da moeda norte-americana flutue com mais flexibilidade. Para o sistema de bandas cambiais foi estabelecida uma nova metodologia e redefinida a taxa de flutuação, que ficará entre o piso de R$ 1,20 e o teto de R$ 1,32 no primeiro momento. Estes valores passarão a ser revistos a cada três dias úteis pelo Banco Central.
O objetivo da equipe econômica com as medidas, segundo explicou ontem Francisco Lopes, já como presidente em exercício do BC, é ter mais um elemento para determinar a redução das taxas de juros a curto prazo. ‘‘Nós potencialmente criaremos a possibilidade de reduzir os juros e tornar a política monetária menos restritiva’’, afirmou Lopes. A queda nos juros, porém, ainda dependerá da reação do mercado financeiro internacional às medidas e da aprovação do pacote de ajuste fiscal pelo Congresso.
Logo que tomou conhecimento da alteração na banda cambial, o mercado financeiro passou a operar com o valor do dólar no teto de R$ 1,32 estabelecido ontem pelo governo. Isto representou, na prática, uma desvalorização na moeda brasileira de 8,96% em relação à taxa de R$ 1,2114 que estava sendo praticada na terça-feira pelo mercado financeiro, segundo admitiu Francisco Lopes. ‘‘Pode ter um dia que as taxas sobem 8% e outra em que elas vão cair 8%’’, lembrou Lopes. ‘‘A cotação da taxa de câmbio será algo mais animado do que era no passado.’’ A variação cambial da política comandada por Gustavo Franco era, segundo Lopes, ‘‘muito monótona’’.
Em seu discurso de despedida, o ex-presidente do BC deixou claro que não participou da construção da nova política cambial, idealizada por seu sucessor. Embora tenha declarado apoio à mudança, Franco lembrou que apenas tomou conhecimento dos detalhes.
A falta de sintonia de Gustavo Franco com a nova política cambial pode ser deduzida por outra frase do seu discurso de despedida. ‘‘Jamais seria minha intenção servir como embaraço à natural reorientação das políticas de juros e câmbio, conforme desejo do Presidente da República’’, afirmou. ‘‘Assim sendo tornou-se natural que os dois assuntos - meu desligamento e a flexibilização nas políticas de juro e câmbio - devessem ser considerados em conjunto’’.
Antes da mudança, a última alteração feita nas faixas de flutuação do câmbio ocorreu em janeiro do ano passado, quando foram estabelecidos os limites de R$ 1,12 e R$ 1,22 para a variação da moeda. Nos últimos meses foram feitas alterações períodicas, normalmente semanais, no valor do real nas chamadas ‘‘intrabandas’’, ou seja, entre os valores máximos e mínimos da banda cambial. Mexendo na intrabanda, o Banco Central vinha promovendo, anualmente, uma desvalorização de 7% ao ano no real com relação à moeda norte-americana. Na nova sistemática, em janeiro de 2000, o teto da banda apresentará uma desvalorização nominal em relação à taxa de câmbio atual da ordem de 12 a 15% segundo o Banco Central.
De acordo com Francisco Lopes, o mercado financeiro é quem achará a taxa de equilíbrio do câmbio para o País. Segundo ele, os economistas que afirmam que a taxa de câmbio está defasada em 20% continuam errando. Lopes garantiu que o Banco Central não mudou a política cambial para tentar corrigir o câmbio real. ‘‘O Banco Central não deve ter como objetivo a taxa de câmbio real’’, disse Lopes, explicando que o poder de compra da moeda brasileira é um fenômeno de mercado, que deverá definir a taxa.
O novo presidente do BC sublinhou que a redução potencial das taxas de juros, objetivo maior da alteração na política cambial, só será possível depois de implementado o ajuste fiscal, ficando ainda na dependência da situação internacional. O Banco Central, segundo Francisco Lopes, não abre mão da austeridade na condução da política monetária. ‘‘O Banco Central somente produzirá um movimento mais rápido das taxas de juros para baixo, quando julgar que as condições da economia assim o permitirem’’.Ed Ferreira/Agência EstadoPai da idéiaGustavo Franco (acima) declarou apoio à mudança na política cambial mas deixou claro que não participou da sua construção, idealizada pelo novo presidente do BC, Francisco Lopes (ao lado)- Franco deixa Banco Central e Francisco Lopes assume
- Novo sistema prevê faixas entre R$ 1,20 e R$ 1,32
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