Governo muda comando do BC e altera o câmbio com a desvalorização do real
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quinta-feira, 14 de janeiro de 1999
Agência Estado 
O governo realizou ontem a troca no comando do Banco Central, substituindo Gustavo Franco pelo atual diretor de Política Monetária, Francisco Lopes, e mudou a política cambial, permitindo que a cotação da moeda norte-americana flutue com mais flexibilidade. Para o sistema de bandas cambiais foi estabelecida uma nova metodologia e redefinida a taxa de flutuação, que ficará entre o piso de R$ 1,20 e o teto de R$ 1,32 no primeiro momento. Estes valores passarão a ser revistos a cada três dias úteis pelo Banco Central.
O objetivo da equipe econômica com as medidas, segundo explicou ontem Francisco Lopes, já como presidente em exercício do BC, é ter mais um elemento para determinar a redução das taxas de juros a curto prazo. Nós potencialmente criaremos a possibilidade de reduzir os juros e tornar a política monetária menos restritiva, afirmou Lopes. A queda nos juros, porém, ainda dependerá da reação do mercado financeiro internacional às medidas e da aprovação do pacote de ajuste fiscal pelo Congresso.
Logo que tomou conhecimento da alteração na banda cambial, o mercado financeiro passou a operar com o valor do dólar no teto de R$ 1,32 estabelecido ontem pelo governo. Isto representou, na prática, uma desvalorização na moeda brasileira de 8,96% em relação à taxa de R$ 1,2114 que estava sendo praticada na terça-feira pelo mercado financeiro, segundo admitiu Francisco Lopes. Pode ter um dia que as taxas sobem 8% e outra em que elas vão cair 8%, lembrou Lopes. A cotação da taxa de câmbio será algo mais animado do que era no passado. A variação cambial da política comandada por Gustavo Franco era, segundo Lopes, muito monótona.
Em seu discurso de despedida, o ex-presidente do BC deixou claro que não participou da construção da nova política cambial, idealizada por seu sucessor. Embora tenha declarado apoio à mudança, Franco lembrou que apenas tomou conhecimento dos detalhes.
A falta de sintonia de Gustavo Franco com a nova política cambial pode ser deduzida por outra frase do seu discurso de despedida. Jamais seria minha intenção servir como embaraço à natural reorientação das políticas de juros e câmbio, conforme desejo do Presidente da República, afirmou. Assim sendo tornou-se natural que os dois assuntos - meu desligamento e a flexibilização nas políticas de juro e câmbio - devessem ser considerados em conjunto.
Antes da mudança, a última alteração feita nas faixas de flutuação do câmbio ocorreu em janeiro do ano passado, quando foram estabelecidos os limites de R$ 1,12 e R$ 1,22 para a variação da moeda. Nos últimos meses foram feitas alterações períodicas, normalmente semanais, no valor do real nas chamadas intrabandas, ou seja, entre os valores máximos e mínimos da banda cambial. Mexendo na intrabanda, o Banco Central vinha promovendo, anualmente, uma desvalorização de 7% ao ano no real com relação à moeda norte-americana. Na nova sistemática, em janeiro de 2000, o teto da banda apresentará uma desvalorização nominal em relação à taxa de câmbio atual da ordem de 12 a 15% segundo o Banco Central.
De acordo com Francisco Lopes, o mercado financeiro é quem achará a taxa de equilíbrio do câmbio para o País. Segundo ele, os economistas que afirmam que a taxa de câmbio está defasada em 20% continuam errando. Lopes garantiu que o Banco Central não mudou a política cambial para tentar corrigir o câmbio real. O Banco Central não deve ter como objetivo a taxa de câmbio real, disse Lopes, explicando que o poder de compra da moeda brasileira é um fenômeno de mercado, que deverá definir a taxa.
O novo presidente do BC sublinhou que a redução potencial das taxas de juros, objetivo maior da alteração na política cambial, só será possível depois de implementado o ajuste fiscal, ficando ainda na dependência da situação internacional. O Banco Central, segundo Francisco Lopes, não abre mão da austeridade na condução da política monetária. O Banco Central somente produzirá um movimento mais rápido das taxas de juros para baixo, quando julgar que as condições da economia assim o permitirem.Ed Ferreira/Agência EstadoPai da idéiaGustavo Franco (acima) declarou apoio à mudança na política cambial mas deixou claro que não participou da sua construção, idealizada pelo novo presidente do BC, Francisco Lopes (ao lado)- Franco deixa Banco Central e Francisco Lopes assume
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