La Paz, Bolívia - A retomada dos investimentos da Petrobras na Bolívia não deve garantir, no curto prazo, alívio para o estressado mercado brasileiro de gás natural. La Paz, na verdade, se esforça para cumprir compromissos de abastecimento já firmados com o mercado interno e com a Argentina, restando ao Brasil o terceiro lugar na lista de prioridades para novos volumes de gás natural. Os projetos que serão anunciados em dezembro pela estatal brasileira vão, no máximo, garantir a manutenção do contrato atual até 2019, quando termina sua vigência.
O próprio presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, admitiu a hipótese na semana passada, ao dizer que a expansão do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol) não está nos planos no momento. Ele afirmou que o gás de novos projetos bolivianos não serviria necessariamente ao Brasil e, no que concerne ao mercado brasileiro, o objetivo da companhia era apenas repor volumes de poços que estão se tornando maduros, ou seja, com os níveis de produção decrescentes.
Analistas do mercado de petróleo esperam que a Petrobras anuncie a expansão, em até 6 milhões de metros cúbicos por dia, do campo de San Antonio, o maior da Bolívia. Além disso, novas parcerias em exploração de jazidas com a estatal boliviana YPFB podem sair do papel. Mas, mesmo em caso de descobertas, a Bolívia deve priorizar compromissos já assumidos. Com a Argentina, por exemplo, La Paz se comprometeu a entregar 27,7 milhões de metros cúbicos por dia a partir de 2010.
Além disso, especialistas lembram que a YPFB precisa encontrar gás natural para abastecer o complexo siderúrgico de Mutún, controlado pela indiana Jindal Steel, com consumo de gás entre 8 milhões e 10 milhões de metros cúbicos por dia. O investimento, de US$ 2,3 bilhões, é a menina-dos-olhos do programa do governo Evo Morales para industrializar o gás boliviano em seu território.
A Bolívia trabalha ainda para aumentar o consumo interno de residências, comércio e veículos. No início do mês, o governo inaugurou a terceira fase da expansão do Gasoduto do Altiplano, que vai garantir à região de La Paz 2,1 milhões de metros cúbicos por dia. La Paz e El Alto já começam a receber postos de gás natural veicular (GNV) e experimentam uma explosão no acesso à rede de gás natural: entre 2000 e 2006, o número de clientes da distribuidora local cresceu 697%, segundo dados da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos (CBH).
A tendência é que o crescimento se mantenha, pois a YPFB tem um projeto de incentivo à rede de gás domiciliar no país. Em 2005, o programa previa chegar a 39 mil residências, mas a meta já foi ampliada várias vezes e está em 91 mil.
Segundo a lei do petróleo boliviana, o mercado interno, que consome cerca de 6 milhões de metros cúbicos por dia, tem preferência sobre os demais. Depois, vem o contrato atual de exportações ao Brasil, conhecido como GSA (sigla em inglês para Acordo de Suprimento de Gás). (Agência Estado)

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