Governo já havia assinado 11 cartas de intenção
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de novembro de 1998
Agência Folha 
Em quase 12 anos de negociação da dívida externa, o governo brasileiro assinou 11 cartas de intenção com o FMI. Não conseguiu cumprir os compromissos assumidos em nenhuma delas. A primeira foi entregue em janeiro de 1983, depois que a crise do petróleo, iniciada no final de 1982, elevou o preço dos combustíveis e os juros internacionais.
Com a crise, o México foi obrigado a interromper o pagamento dos seus débitos e arrastou outros países do Terceiro Mundo, entre eles o Brasil. De uma hora para outra, os juros da dívida brasileira subiram de menos de 10% para 22% ao ano. Sem recursos para quitar os compromissos com os credores, o País foi obrigado a recorrer ao FMI para obter empréstimos ou o aval do Fundo.
Para conseguir ajuda, o Brasil tinha de prometer reduzir a taxa de inflação, cortar gastos públicos e manter o pagamento da dívida externa em dia. Era mais simples prometer do que cumprir. O primeiro acordo previa que a inflação em 1983 não ultrapassaria 70%. Demorou apenas um mês para que a previsão subisse para 90%. Por causa disso, foi necessário apresentar outra carta de intenção. Na terceira carta, em setembro de 1983, a meta de inflação anual havia subido para 150%. Dois meses, a previsão do governo brasileiro já batia nos 220%.
A cada meta não cumprida, o governo era obrigado a elaborar nova carta. Elas eram enviadas a Washington, sede do FMI, acompanhadas de pedidos de waiver (perdão), indispensáveis para que as remessas de recursos para o país não fossem interrompidas.
Técnicos do Fundo eram enviados regularmente ao Brasil para conferir as contas do governo e fiscalizar o cumprimento dos acordos assinados. Um desses fiscais - a economista chilena Ana Maria Jul - fez tantas viagens ao Brasil e recebeu tanta atenção da imprensa que acabou se transformando em uma figura mais conhecida do que alguns ministros da área econômica. Em 1984, Ana Maria Jul virou até nome de ala de um bloco carnavalesco de Brasília.
A negociação da dívida externa só foi concluída em abril de 1994. Depois de tanta conversa com o FMI e 11 cartas de intenção assinadas, o acordo para pagar US$ 98 bilhões foi fechado diretamente com os credores privados. Sem o aval do Fundo.


