Se continuar alto o consumo de produtos como automóveis e eletroeletrônicos, o governo deve adotar medidas de restrição ao crédito já na próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), no fim do mês. A contenção do crediário, segundo técnicos do Ministério da Fazenda, teria também efeito sobre os resultados do comércio exterior: os setores visados, automóveis e eletroeletrônicos mesmo produzidos no País, têm alto grau de componentes importados.
‘‘Queremos reduzir a taxa de crescimento do consumo’’, confirmou o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros, que faz questão de frisar o termo ‘‘taxa de crescimento’’. ‘‘Não queremos recessão, mas não se pode sustentar um crescimento de até 50% no consumo com aumento de 70% no crédito, como vem acontecendo’’, disse.
Na semana passada, outros integrantes da equipe econômica, como o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, e o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Gustavo Franco, declararam que o governo está atento ao crescimento do consumo.
O governo tem informações de que os empréstimos de bancos para pessoas físicas cresceram 70% de janeiro de 1996 a janeiro deste ano, um sinal de que os consumidores estão encontrando nos bancos o crédito que começou a escassear nas lojas, preocupadas com a inadimplência dos clientes. Outra informação que preocupa os técnicos é a persistência do crescimento na produção e consumo, em março e abril, meses em que, tradicionalmente, há um arrefecimento, depois do movimento de reposição de estoques no início do ano.
Em março, a produção de automóveis chegou a 170 mil, um aumento de 12% em relação a março de 1996, e as previsões da indústria são de crescimento próximo a 20% ao mês, em média, mesmo com o aumento das importações. Na indústria eletroeletrônica, o crescimento de 15% em média nas vendas também incomoda o governo.
EquilíbrioMendonça de Barros diz que se o governo adotar medidas anticonsumo, ‘‘elas serão localizadas e não genéricas’’, como em 95, quando o governo adotou pacote com alta de juros e restrições ao crédito e às importações. ‘‘O que gostaríamos para 1997 é de uma estrutura de demanda mais equilibrada’’, diz Mendonça de Barros. Traduzindo, o governo tentará reduzir os gastos públicos, evitar crescimento muito alto do consumo das famílias e, numa demonstração de que a recessão não é objetivo da equipe, serão adotadas medidas para incentivar outros setores, como a produção de bens de capital (máquinas e equipamentos para a indústria e agricultura) e a construção civil.
‘‘É isso que chamamos reequilíbrio da demanda. Queremos mais produção de bens de capital, mais construção civil e mais exportações’’, diz o secretário. Para estimular investimentos em habitação, o governo deve enviar brevemente ao Congresso um projeto de lei para criar a figura da ‘‘alienação fiduciária’’, um mecanismo pelo qual o financiador teria a garantia da retomada imediata do imóvel em caso de inadimplência do comprador.

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