Arquivo FolhaRedutoresMendonça de Barros: não há preocupação agora, mas a contenção virá se o consumo for exageradoO governo poderá colocar o pé no freio da economia, dependendo da leitura que fizer dos indicadores a partir de março. ‘‘Não há nada de preocupante agora, mas se em algum momento julgarmos que o consumo está acima do desejável, adotaremos as medidas necessárias’’, afirmou ontem o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros.
Mas por enquanto, o governo não tem segurança sobre a temperatura da economia. ‘‘Economia não é rádio, que a gente gira o botão e sobe ou desce o volume’’, explicou. ‘‘A decisão de conter a atividade tem de estar embasada em dados inequívocos’’, disse.
A equipe econômica está confusa com o que Mendonça chamou de ‘‘efeito Tostines’’, numa alusão ao slogan que perguntava: ‘‘Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?’’. Ele não sabe se os estoques estão em queda porque o consumo está elevado ou se as vendas precisaram ser puxadas pelas promoções para desovar os estoques formados ao longo de 1996. O fato é que, neste início de ano, a queda nas vendas tradicionais do período não ocorreu.
A luz amarela indicando excesso de atividade econômica acendeu quando ficaram prontos os dados sobre a produção industrial de novembro (os mais recentes). Entre janeiro e junho de 1996, a produção havia crescido 3,2%. Mas, comparando novembro com junho, o que se viu foi um crescimento de 5,8% na produção das indústrias, mesmo descontando o efeito do aumento que sempre ocorre no final do ano. ‘‘Houve uma aceleração expressiva na produção industrial’’, disse o secretário.
Para reforçar a impressão de que a economia está acelerada, os dados sobre consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e ao Telecheque mostram crescimento. O SPC registrou 1,3 milhão de consultas em janeiro, contra 900 mil no ano anterior. No Telecheque, o salto foi de 1 milhão para 1,3 milhão. É um sinal de que as vendas estão em alta. ‘‘Houve uma forte alta em janeiro, e isso é um dado relevante’’, admitiu Mendonça.
Por outro lado, há sinais na economia indicando que as vendas cresceram por razões diferentes de uma febre consumista, como ocorreu em 1995, por exemplo. A principal delas é a redução das taxas de juros e vendas a prazos mais longos. ‘‘O consumidor, que não é bobo, quer fazer bons negócios’’, observou o secretário.
O secretário explicou que, em março, o quadro deverá ficar mais claro, porque nesse período o comércio fará suas encomendas à indústria, e aí se poderá saber se o crescimento das vendas tenderá a se manter ou não.
Indagado se era possível garantir que o CMN, na reunião de hoje, não tomaria nenhuma medida para frear a economia, Mendonça de Barros desconversou. ‘‘Não costumo antecipar nada’’.
A mesma confusão quanto ao nível de consumo aparece quando se analisa o crédito. ‘‘Aparentemente, há um movimento contraditório: as instituições estão aumentando seus empréstimos no momento em que o risco parece estar crescendo’’, disse.
Em janeiro, o total emprestado para as pessoas físicas ficou em R$ 20 bilhões, quando em janeiro de 96 não passou dos R$ 14 bilhões. Os bancos reduziram sua taxa de risco (spread) de 1,6% para 1,2% em um ano.
Por outro lado, o nível de inadimplência cresceu. A proporção de cheques devolvidos saltou de 0,38% para 0,51%. O número de carnês em atraso em janeiro na cidade de São Paulo foi de 190 mil, quando em janeiro passado foi de 130 mil.

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