Duas intervenções do governo, ontem, foram decisivas para acalmar o mercado de câmbio e reduzir a pressão pela alta do dólar. O Banco Central (BC), ainda que não confirme, fez uma venda informal de dólares por intermédio do Banco do Brasil (BB), a primeira desde a mudança na política cambial. Além disso, realizou, no fim da manhã, leilão de venda de Notas do BC corrigidas pela variação do dólar (NBC-E). No fechamento do mercado, a moeda norte-americana era negociada praticamente pelo mesmo preço da véspera, R$ 1,71, com alta de 0,58%. A desvalorização do real desde 13 de janeiro atingiu 29,17%.
O mercado abriu ontem já negociando o dólar nos níveis máximos da véspera, R$ 1,76. Foi quando o BC decidiu fazer a primeira intervenção, derrubando a cotação para R$ 1,66. Como era comum antes da mudança cambial, a operação ocorreu, mas não foi oficial.
Um diretor de um banco bastante ativo em câmbio disse que a estratégia do BB foi vender pequenos lotes toda vez que os preços subiam, que no fim do dia teriam totalizado de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões. Esse executivo considerou positivo o fato de o banco não ter vendido dólares a preços baixos ‘‘para não dar oportunidade de se fazer compras especulativas’’. Ele explica que, se continuasse a vender a moeda quando a cotação batesse em níveis mais baixos, o BB estaria dando munição aos bancos: ‘‘Eles poderiam comprar dólares a R$ 1,66 e vender a R$ 1,71, por exemplo.’’
Muitos profissionais do mercado acharam positiva a atuação informal do BC. Luís Eduardo Assis, executivo do HSBC Bamerindus, observou que o governo avisara que interviria no câmbio quando necessário e ontem foi o dia em que ele deveria monitorar os preços. O ex-diretor do BC justificou a intervenção lembrando que é necessário reconhecer a diferença entre o comprador de dólar, que pagava R$ 1,21 pela moeda dias atrás, e o de ontem, que comprava a R$ 1,70.
‘‘A pressão que se observa denota um claro momento de desequilíbrio de liquidez e o BC poderia ter garantido o equilíbrio sem estar correndo o risco de sugerir a fixação de bandas ou algo parecido, exatamente porque uma desvalorização de 40% nem sequer era cogitada pelo mercado.’’ Assis conta que as simulações realizadas pelo HSBC Bamerindus mostram ganhos significativos na balança comercial com a desvalorização de 25%. Ganho que seria reproduzido no balanço de pagamentos, no déficit em transações correntes, que tenderia a cair pela metade. Portanto, deixar que o mercado cometa exageros é imprudente.
Assis acredita que, enquanto o BC não intervir nos negócios para evitar graves flutuações, elas tenderão a repetir-se e o próprio governo estaria alimentando turbulências desnecessárias. ‘‘Intervenção feita no momento certo não ameaça de forma alguma a credibilidade de um Banco Central’’, conclui.

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