Governo evitará que a multa aumente o IPCA
O governo deve usar o próprio método de cálculo da inflação para driblar os efeitos sobre a inflação da cobrança de tarifas mais elevadas dos consumidores que não economizarem energia, como previsto no plano de racionamento que será anunciado hoje. A aplicação da tarifa punitiva para quem consumir mais de 250 kwh por mês, valor que vem sendo usado como referência nos estudos do governo, não será captada pelo Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) porque esse limite fica acima da conta de energia padrão usada para o cálculo do índice de inflação.
O IPCA é usado pelo governo para fixar a meta de inflação de cada ano e, ao evitar que o índice capte o efeito direto do racionamento, o governo está, na verdade, diminuindo as chances de um aumento nos juros. Isso porque se o IPCA fosse afetado pelas novas tarifas, a meta do ano poderia ficar comprometida e o Banco Central (BC) seria obrigado a elevar os juros para controlar a pressão sobre preços ou a descumprir seu principal objetivo de política monetária.
Livres do efeito que as novas tarifas terão sobre a inflação, as preocupações da equipe econômica passam a ser com os efeitos indiretos da poupança forçada de energia. De acordo com fontes do governo, é muito difícil estimar com precisão o impacto indireto do racionamento sobre preços, o que obriga o Banco Central (BC) a orientar a política de juros à medida em que a economia for dando sinais de reação à nova condição de oferta de energia.
Se por um lado haverá uma redução na oferta e na produção, a demanda também vai desacelerar. O fator determinante vai se a velocidade em que esses dois processos vão se dar e isso é impossível antecipar com segurança, explica uma fonte oficial.
O drible do governo na inflação não afasta, porém, a piora nas projeções do ano. Isso porque além dos efeitos indiretos da medida, há outros focos de pressão inflacionária, como a manutenção do dólar em patamares mais elevados, a necessidade de reajuste no preço dos combustíveis, o aumento na tarifa de ônibus em São Paulo, que tem peso grande no IPCA e os preços agrícolas que continuam altos, embora tenham reduzido o ritmo de reajustes.
A explicação para o efeito nulo do aumento de tarifa sobre o IPCA está na metodologia de cálculo do índice. Para definir o consumo médio de energia dos consumidores, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo cálculo, faz uma pesquisa com famílias em todas as cidades que são incluídas no IPCA.





