O governo está monitorando o comportamento da economia, mas ainda não tem clareza sobre o atual cenário e acha cedo para decidir sobre novas medidas. ‘‘Há uma frustração, entre aspas, quanto à trajetória de crescimento econômico’’, disse ontem a secretária-adjunta de Política Econômica, Julieda Puig. ‘‘Mas é temerário tomar decisões à luz dos dados que se tem hoje, sem esperar a maturação dos efeitos das medidas já adotadas, como a redução, pela metade, das taxas de juros.’’
Ela ressaltou, porém, que o quadro não representa empecilho a novas medidas. ‘‘Dependendo da avaliação da Câmara de Política Econômica, o governo pode agir preventivamente’’, observou. A secretária-adjunta acha cedo para concluir se a economia está ou não precisando de novos estímulos para aquecer-se. ‘‘A economia ainda está absorvendo as mudanças mais recentes’’, comentou. ‘‘Estamos cuidando das feridas da retração econômica determinada pela crise internacional, e isso tem ainda um efeito ao longo do tempo.’’ Ela afirmou que o cenário é de crescimento para o segundo semestre.
A análise sobre a atual situação da economia está, porém, prejudicada pela falta de dados. Puig explicou que o levantamento sobre o desempenho setorial da indústria, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é um subsídio importante para o acompanhamento feito pela Secretaria de Política Econômica. No entanto, como o IBGE está em greve, os resultados da pesquisa relativos a maio ainda não ficaram prontos.
Ela explicou que a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre o crédito à pessoa física de 15% para 6% ao ano, anunciada na semana passada, foi uma medida de caráter preventivo. ‘‘Foi para acelerar um movimento que já estava ocorrendo, de redução nos níveis de inadimplência’’, observou.
Quando o governo anunciou a queda do IOF, o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), José Roberto Mendonça de Barros, havia dito que o governo tinha detectado, em junho, sinais de que a economia não entraria na trajetória de crescimento esperada para o segundo semestre.
A redução do IOF, segundo ele, ajudaria a manter a projeção de crescimento de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) em 98, sendo que as taxas de aceleração do último trimestre, projetados para o período de um ano, chegariam a 4%. Mendonça havia dito que a medida já estava em estudo há muito tempo, mas que a concordata de uma grande rede de lojas havia dado o alerta ao governo.
Segundo Puig, esses sinais existiram, mas o que ajudou o governo a decidir pela redução do IOF foi principalmente a ausência dos fatores que, em maio de 97, tinham determinado sua elevação. O principal deles foi a situação da balança comercial.
Em maio de 97, a economia e as importações estavam em crescimento e, por isso, o déficit anualizado era da ordem de US$ 9 bilhões. ‘‘Independente do nível de aquecimento da economia, o déficit comercial era um problema concreto’’, disse ela. Em junho de 98, porém, a projeção havia caído para US$ 6,7 bilhões. Por isso, não mais há o risco de acirrar o desequilíbrio nas contas externas brasileiras.
‘‘Ao contrário do que ocorreu no ano passado, hoje não há sinais de crescimento exacerbado da economia; pode-se falar, no máximo, num crescimento moderado’’, disse Puig. ‘‘Por isso, não havia por que sustentar o IOF num nível proibitivo.’’ Ela acredita que os efeitos da redução do IOF ocorrerão a médio prazo, e serão no sentido de aumentar a quantidade de crédito disponível, como efeito da queda nos níveis de inadimplência.
De acordo com cálculos feitos por Puig, a perda de arrecadação provocada pela redução do IOF seria reposta apenas com a venda financiada de mais 2.700 unidades mensais de automóveis. Atualmente, são comercializadas cerca de 70 mil unidades por mês. ‘‘Esses números nos parecem factíveis’’, disse ela.
Os técnicos da Receita Federal, porém, que sempre foram contra a redução da taxa, temem que a perda, estimada em R$ 765 milhões neste ano, não seja totalmente compensada. Eles sustentam que a economia dá sinais de retração desde maio, por isso não há garantia de aumento nas vendas.Arquivo FolhaLuz amarelaMendonça de Barros admitiu no mês passado que o governo havia detectado ‘‘sinais’’ de que economia não entraria na trajetória de crescimento esperada para o segundo semestre. A concordata de uma grande rede de lojas seria um delesTécnicos vão avaliar os efeitos da redução do IOF antes de novas medidas

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